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“Existe
uma chave para a liberdade: Pense! Se quiseres ser um
cordeiro, seja feita a tua vontade. Não reclames,
entretanto, quando fores servido em nosso grande Sabbath!”
Um
“bem velho” dito pagão, do século XX |
Prefácio
Tenho a satisfação de recomendar ao
público a presente obra, escrita sob o título “Jesus Cristo
Nunca Existiu”, de La Sagesse, em cujo conteúdo o autor revela
o seu pensamento de modo fiel e sem reticências a respeito de
tão delicado assunto. Embora seja este o seu primeiro trabalho
publicado, o autor revela-se um escritor em potencial, de quem
muito ainda se pode esperar. Diante da necessidade sempre
crescente da verdade, encetou a presente obra para doar à
humanidade a sua contribuição de natureza cultural, querendo
apenas cumprir o seu dever de informar, perante si próprio e
perante os homens.
Aos oportunistas pouco importa se sob a
palavra sonora se oculta a hipocrisia e a mentira. Contudo, para
os espíritos puros e corajosos, para os quais os interesses
particulares não devem sobrepor-se aos anseios do povo, mister se
faz que a verdade surja em toda a sua plenitude, deitando por
terra toda a fraude e mistificação. Este é um livro corajoso,
concebido sem a preocupação de agradar ou desagradar, não
importando se suscetibilidades são feridas pelo que aqui está
exposto. O seu intuito é exclusivamente patentear as provas
inequívocas de falsificação e mistificação, as quais foram
impostas aos homens a ferro e fogo, durante séculos.
No decurso da obra, são reveladas todas as
idéias da Igreja como realmente são: a mais pútrida e falsa
amoedação que pode haver, capaz de desprezar a natureza e os
valores naturais. Constituiu-se a Igreja em verdadeiro parasita do
homem crente, a verdadeira tarântula através da qual o clero que
se constitui em uma minoria privilegiada vem sugando e envenenando
sem parar o sangue e a vida daqueles que, iludidos por falsas
promessas, mantêm os olhos fechados para a realidade da vida e
das coisas.
Em todo o tempo, a meta principal da Igreja
é tornar o homem o mais desgraçado possível, daí a idéia do
pecado e da culpabilidade, para criar uma raça de escravos e de
castrados de pensamento. Assim, tolhida a sua liberdade de
pensamento, torna-se presa fácil e maleável nas mãos da Igreja.
O temor dos castigos eternos, prometidos para os que se insurgem
contra os ensinamentos da Santa Igreja, impede o homem crente de
duvidar sequer do que a mesma lhe incute no espírito como
verdade. Só o homem que consegue vencer a barreira do temor e da
ignorância goza realmente de uma liberdade plena que poderá
torná-lo feliz.
Apesar de haver uma acentuada liberalidade
existente em nossos dias, ainda é pequeno o número dos que
sacodem o jugo opressor, libertando-se da tutela hostil e
interesseira da Igreja, de seus dogmas e vãs promessas. E é bem
menor ainda o número dos que têm a coragem de proclamar em altas
vozes o seu pensamento, liberto dos preconceitos religiosos que
subjugam o homem.
Felizmente, La
Sagesse faz parte deste círculo restrito, para quem a verdade e o
bem estar do homem estão acima de qualquer coisa e dependem em
muito de sua liberdade. A própria bondade do homem deve
revelar-se por si só, e não porque a ela seja constrangido,
porquanto assim perderá a sua verdadeira característica,
passando a ser um ato subalterno, sem nenhum valor moral.
Não se omite a esta altura a homenagem que
faz jus a quem não economizou esforços no sentido de patentear a
verdade, antes se multiplicou em cuidados para fornecer aos
leitores uma obra capaz de despertar o interesse pelo seu real
valor e critérios adotados. O autor possui uma vasta obra
literária ainda inédita, que deverá vir a público
oportunamente.
Maria
Ribeiro
Prólogo
Homem ateu é assim
chamado aquele que não crê em Deus. Etimologicamente, “Theos”,
do grego, significa Deus. Anexando-se o prefixo “a”, o qual
indica ausência ou negação, teremos ateu, isto é, sem Deus. No
mundo moderno onde vivemos, no qual impera a razão, a lógica e o
conhecimento científico, não nos é mais possível estabelecer
diferença essencial entre ateus ou crentes.
Os que acreditam em um Deus materializável,
prosternando-se e orando diante de seus altares, em seus templos,
são também verdadeiros ateus. Apenas deste fato não se dão
conta. A seguir tentaremos explicar o nosso ponto de vista. O
homem primitivo, sentindo-se indefeso diante do mundo hostil que o
rodeia e que desconhece, a tudo teme. Apavoram-no os fenômenos da
natureza, tais como as tempestades, os trovões, os relâmpagos e
tantos outros os quais julga serem a manifestação digna de um
Ser Supremo, muito poderoso e desconhecido. Então, na sua
impotência para controlar a natureza, e não encontrando
explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se o nosso
homem para aquele Ser Poderoso que imagina comandar o mundo.
Submisso e suplicante, implora-lhe perdão pelas faltas cometidas,
simula preces e oferece-lhe sacrifícios. Com isso, supõe aplacar
a ira dos deuses e ganhar-lhes sua benevolência para dias
vindouros, Está, assim, lançada a semente da religião que no
decorrer do tempo irá ganhando novas formas e sofrerá
modificações, de acordo com o próprio homem, suas necessidades
e aspirações.
Então perguntaremos, diante de que ou de
quem ajoelha-se o homem? Diante de Deus? Não. Por incrível que
pareça, o homem ajoelha-se, ainda hoje, diante do altar rústico,
erguido pelo temor do homem primitivo castigado pelas forças
adversas da natureza, e impotente para contê-las. Não é lógico
que o homem que evoluiu conseguindo maravilhas, obtendo os meios
necessários para definir e mesmo refrear os furores da natureza,
paradoxalmente continue praticando os cultos de desagravo, criados
pelos amedrontados ancestrais.
Concluímos
do que acima foi dito que os religiosos de qualquer espécie são
ateus, porquanto, de acordo com a própria etimologia da palavra
ateu, continuam sem Deus. Isto é verdadeiro, porquanto, não é
possível a ninguém ter algo inexistente, no caso o Ser Poderoso,
Deus ou deuses, conforme prefiram. À medida que o homem foi
evoluindo, promoveu sua organização social, inclusive a
religiosa. E o homem permaneceu contrito, ajoelhado diante de Deus
e do sacerdote. Aos poucos, vai a religião tornando-se um ótimo
e cômodo meio de vida para a minoria privilegiada composta pelos
sacerdotes, verdadeiro comércio com o qual o povo tem sido
espoliado através dos tempos.
Surgiram deuses e religiões idealizadas
pelos espertos, a fim de satisfazer a todos os gostos e
tendências. Até o século IX, os estudiosos do assunto já
haviam catalogado nada menos de 60 mil deuses, sob as mais
variadas formas, desde a de animal, semi-animal, até atingir o
aspecto integral do corpo humano. Criaram deuses como Baco, o deus
do vinho, homenageado com tremendas bebedeiras. Vênus, a deusa do
amor. Para reger a cada ato da vida, foram criados deuses
especiais; inclusive para cada fenômeno da natureza.
Apesar do fervor com o qual os deuses têm
sido incensados através dos tempos, jamais se conseguiu provar
que a fé a eles devotada tenha melhorado a sorte do homem e do
mundo. Por isso somos levados a crer que todos aqueles que têm
adorado aos deuses têm perdido o seu precioso tempo. O homem, com
o poder de sua inteligência e imaginação, vai aos poucos
adquirindo e sistematizando os seus conhecimentos, tornando-os
cultura e ciência. Gradativamente vai levantando o véu do
mistério que lhe obscurecera a razão. A explicação dos fatos
fundamentada na ciência liberta-o dos temores.
O conhecimento científico, alijando as
trevas da ignorância, leva-nos a compreender que os milhares de
deuses dos quais temos tido conhecimento são produtos de mentes
férteis e pretensiosas, como a do clero e outros interessados em
lucros fáceis. A total ausência de uma intervenção direta de
Deus nos destinos do homem e do mundo é prova de que o clero
conduz o homem por caminho errado. Valendo-se da boa fé do povo
incauto é que o clero, em todos os tempos, tem desenvolvido sua
atividade parasitária, chorando tanto quanto possível a economia
humana. Assim, pode desfrutar de boa vida, luxo e palácios,
praticamente sem trabalhar, com o dinheiro que o homem religioso
passa-lhe às mãos, julgando assim comprar sua entrada no céu.
O sacerdote é sempre categórico em suas
afirmações diante do crente, mostrando-se, contudo, reticente e
cauteloso em face do conhecimento científico do homem de saber
aprimorado. A este falará sobre tudo, mas evitará abordar o que
se refere a Deus, religião ou teologia. Tendo ultrapassado a
época do medo, a raça humana não se libertou totalmente do
sentimento religioso, porquanto, existem os que se valem do nome
de Deus e das religiões para viverem ociosamente, desfrutando de
boa posição e respeito, sem, contudo, dar aos homens qualquer
contribuição que lhes aproveite para sua felicidade e bem estar.
Apenas a promessa de uma boa vida futura, após a morte. Todavia,
até esta ser-lhe-á garantida apenas com a condição de
suportar, pacientemente, muitos sofrimentos em sua passagem pela
terra. Ora, são promessas vãs e mentirosas. Será que o
sacerdote daria para alguém o Reino dos Céus, se dele
dispusesse? Tudo nos leva a crer que não.
Não acreditamos que as religiões possam
desaparecer tão cedo da face da Terra, apesar do aprimoramento,
sempre em expansão, do conhecimento científico. As religiões
não morrem, modificam-se. Desde os primórdios da humanidade, o
aparecimento sempre de novos deuses e modalidades de culto
justificam tal afirmativa. Em vista de tantas e tais
modificações, é que chegamos à era do advento de Cristo e do
cristianismo, religião esta abraçada por boa parte da
população do mundo atual, em suas variadas ramificações.
E qual o fundamento sobre o qual foi criada
a religião cristã? Nada tem de positivo, palpável ou
verdadeiro. É apenas uma lenda o nascimento de Jesus, como toda a
vida e os atos a ele imputados. Aqueles que criaram o cristianismo
sequer primaram pela originalidade, porquanto, a lenda que envolve
a personalidade de Jesus Cristo é apenas copia de tantas outras
que relatam o nascimento e tudo quanto se referiu aos deuses
criados pelos antigos, tais como Ísis, Osíris, Hórus Átis. Apolo,
Mitra, etc.
O homem do nosso século tem, forçosamente,
de ser prático. Daí, não poderá fundamentar os atos de sua
vida em lendas ou mitos. As lendas possuem, evidentemente, um
grande valor, fazem parte do folclore dos povos, influindo na
formação de suas culturas. Entretanto, o seu valor cultural não
deve ultrapassar o limite lógico e aceitável.
I
Jesus
Cristo Nunca Existiu
Os pesquisadores que
se dedicaram ao estudo das origens do cristianismo sabem que,
desde o Século II de nossa era, tem sido posta em dúvida a
existência de Cristo. Muitos até mesmo entre os cristãos
procuram provas históricas e materiais para fundamentar sua
crença. Infelizmente, para eles e sua fé, tal fundamento jamais
foi conseguido, porquanto, a história cientificamente elaborada
denota que a existência de Jesus é real apenas nos escritos e
testemunhas daqueles que tiveram interesse religioso e material em
prová-la.
Desse modo, a
existência, a vida e a obra de Jesus carecem de provas
indiscutíveis. Nem mesmo os Evangelhos constituem documento
irretorquível. As bibliotecas e museus guardam escritos e
documentos de autores que teriam sido contemporâneos de Jesus, os
quais não fazem qualquer referência ao mesmo. Por outro lado, a
ciência histórica tem-se recusado a dar crédito aos documentos
oferecidos pela Igreja, com intenção de provar-lhe a existência
física. Ocorre que tais documentos, originariamente, não
mencionavam sequer o nome de Jesus; todavia, foram falsificados,
rasurados e adulterados visando suprir a ausência de
documentação verdadeira.
Por outro lado, muito
do que foi escrito para provar a inexistência de Jesus Cristo foi
destruído pela Igreja, defensivamente. Assim é que, por falta de
documentos verdadeiros e indiscutíveis, a existência de Jesus
tem sido posta em dúvida desde os primeiros séculos desta era,
apesar de ter a Igreja tentado destruir a tudo e a todos os que
tiveram coragem ousaram contestar os seus pontos de vista, os seus
dogmas.
Por tudo isso é que
o Papa Pio XII, em 955, falando para um Congresso Internacional de
História em Roma, disse: “Para
os cristãos, o problema da existência de Jesus Cristo concerne
à fé, e não à história”.
Emílio Bossi, em seu
livro intitulado “Jesus Cristo Nunca Existiu”, compara Jesus
Cristo a Sócrates, que igualmente nada deixou escrito. No
entanto, faz ver que Sócrates só ensinou o que é natural e
racional, ao passo que Jesus ter-se-ia apenas preocupado com o
sobrenatural. Sócrates teve como discípulos pessoas naturais, de
existência comprovada, cujos escritos, produção cultural e
filosófica passaram à história como Platão, Xenófanes,
Euclides, Esquino, Fédon. Enquanto isso, Jesus teria por
discípulos alguns homens analfabetos como ele próprio tê-lo-ia
sido, os quais apenas repetiriam os velhos conceitos e
preconceitos talmúdicos.
Sócrates, que viveu
5 séculos antes de Cristo e nada escreveu, jamais teve sua
existência posta em dúvida. Jesus Cristo, que teria vivido tanto
tempo depois, mesmo nada tendo escrito, poderia apesar disso ter
deixado provas de sua existência. Todavia, nada tem sido
encontrado que mereça fé. Seus discípulos nada escreveram. Os
historiadores não lhe fizeram qualquer alusão.
Além disso, sabemos
que, desde o Século II, os judeus ortodoxos e muitos homens
cultos começaram a contestar a veracidade de existência de tal
ser, sob qualquer aspecto, humano ou divino. Estavam, assim, os
homens divididos em duas posições: a dos que, afirmando a
realidade de sua existência, divindade e propósitos de
salvação, perseguiam e matavam impiedosamente aos partidários
da posição contrária, ou seja, àqueles cultos e audaciosos que
tiveram a coragem de contestá-los.
O imenso poder do
Vaticano tornou a libertação do homem da tutela religiosa
difícil e lenta. O liberalismo que surgiu nos últimos séculos
contribuiu para que homens cultos e desejosos de esclarecer a
verdade tentassem, com bastante êxito, mostrar a mistificação
que tem sido a base de todas as religiões, inclusive do
cristianismo. Surgiram também alguns escritos elucidativos, que
por sorte haviam escapado à caça e à queima em praça pública.
Fatos e descobertas desta natureza contribuíram decisivamente
para que o mundo de hoje tenha uma concepção científica e
prática de tudo que o rodeia, bem como de si próprio, de sua
vida, direitos e obrigações.
A sociedade
atualmente pode estabelecer os seus padrões de vida e moral, e os
seus membros podem observá-los e respeitá-los por si mesmos,
pelo respeito ao próximo e não pelo temor que lhes incute a
religião. Contudo, é lamentavelmente certo que muitos ainda se
conservam subjugados pelo espírito de religiosidade, presos a
tabus caducos e inaceitáveis.
Jesus Cristo foi
apenas uma entidade ideal, criada para fazer cumprir as
escrituras, visando dar seqüência ao judaísmo em face da
diáspora, destruição do templo e de Jerusalém. Teria sido um
arranjo feito em defesa do judaísmo que então morria, surgindo
uma nova crença. Ultimamente, têm-se evidenciado as
adulterações e falsificações documentárias praticadas pela
Igreja, com o intuito de provar a existência real de Cristo.
Modernos métodos como, por exemplo, o método comparativo de
Hegel, a grafotécnica e muitos outros, denunciaram a má fé dos
que implantaram o cristianismo sobre falsas bases com uma doutrina
tomada por empréstimos de outros mais vivos e inteligentes do que
eles, assim como denunciaram os meios fraudulentos de que se
valeram para provar a existência do inexistente.
É de se supor que,
após a fuga da Ásia Central, com o tempo os judeus foram
abandonando o velho espírito semita, para irem-se adaptando às
crenças religiosas dos diversos povos que já viviam na Ásia
Menor. Após haverem passado por longo período de cativeiro no
Egito, e, posteriormente, por duas vezes na Babilônia, não
estranhamos que tenham introduzido no seu judaísmo primitivo as
bases das crenças dos povos com os quais conviveram. Sendo um dos
povos mais atrasados de então, e na qualidade de cativos, por
onde passaram, salvo exceções, sua convivência e ligações
seria sempre com a gente inculta, primária e humilde. Assim é
que, em vez de aprenderem ciências como astronomia, matemática,
sua impressionante legislação, aprenderam as superstições do
homem inculto e vulgar.
Quando cativos na
Babilônia, os sacerdotes judeus que constituíram a nata, o escol
do seu meio social, nas horas vagas, iriam copiando o folclore e
tudo o que achassem de mais interessante em matéria de costumes e
crenças religiosas, do que resultaria mais tarde compendiarem
tudo em um só livro, o qual recebeu o nome de Talmud, o livro do
saber, do conhecimento, da aprendizagem. Por uma série de
circunstâncias, o judeu foi deixando, aos poucos, a atividade de
pastor, agricultor e mesmo de artífice, passando a dedicar-se ao
comércio.
A atividade comercial
do judeu teve início quando levados cativos para a Babilônia,
por Nabucodonosor, e intensificou-se com o decorrer do tempo, e
ainda mais com a perseguição que lhe moveria o próprio
cristianismo, a partir do século IV. Daí em diante, a
preocupação principal do povo judeu foi extinguir de seu meio o
analfabetismo, visando com isso o êxito de seus negócios.
Deve-se a este fato ter sido o judeu o primeiro povo no meio do
qual não haveria nenhum analfabeto. Destarte, chegando a Roma e a
Alexandria, encontrariam ali apenas a prática de uma religião de
tradição oral, portanto, terreno propício para a introdução
de novas superstições religiosas. Dessa conjuntura é que nasceu
o cristianismo, o máximo de mistificação religiosa de que se
mostrou capaz a mente humana.
O judeu da diáspora
conseguiu o seu objetivo. Com sua grande habilidade, em pouco
tempo o cristianismo caiu no gosto popular, penetrando na casa do
escravo e de seu senhor, invadindo inclusive os palácios
imperiais. Crestus, o Messias dos essênios, pelo qual parece
terem optado os judeus para a criação do cristianismo, daria
origem ao nome de Cristo, cristão e cristianismo. Os essênios
haviam-se estabelecido numa instituição comunal, em que os bens
pessoais eram repartidos igualmente para todos e as necessidades
de cada um tornavam-se responsabilidade de todos.
Tal ideal de vida
conquistaria, como realmente aconteceu, ao escravo, a plebe,
enfim, a gente humilde. Daí, a expansão do cristianismo que,
nada tendo de concreto, positivo e provável, assumiu as
proporções de que todos temos conhecimento. Não tendo ficado
restrita à classe inculta e pobre, como seria de se pensar,
começou a ganhar adeptos entre os aristocratas e bem-nascidos.
De tudo o que
dissemos, depreende-se que o cristianismo foi uma religião criada
pelos judeus, antes de tudo como meio de sobrevivência e
enriquecimento. Tudo foi feito e organizado de modo a que o homem
se tornasse um instrumento dócil e fácil de manejar, pelas mãos
hábeis daqueles aos quais aproveita a religião como fonte de
rendimentos.
Métodos modernos
como, por exemplo, o método comparativo de Hegel, a
grafotécnica, o uso dos isótopos radioativos e radiocarbônicos,
denunciaram a má fé daqueles que implantaram o cristianismo,
falsificando escritos e documentos na vã tentativa de provar o
que lhe era proveitoso. Por meios escusos tais como os citados, a
Igreja tornou-se a potência financeira em que hoje se constitui.
Finalmente, desde o momento em que surgiu a religião, com ela
veio o sacerdote que é uma constante em todos os cultos, ainda
que recebam nomes diversos. A figura do sacerdote encarregado do
culto divino tem tido sempre a preocupação primordial de
atemorizar o espírito dos povos, apresentando-lhes um Deus
onipotente, onipresente e, sobretudo, vingativo, que a uns premia
com o paraíso e a outros castiga com o inferno de fogo eterno,
conforme sejam boas ou más suas ações.
No cristianismo,
encontraremos sempre o sacerdote afirmando ter o homem uma alma
imortal, a qual responderá após a morte do corpo, diante de
Deus, pelas ações praticadas em vida. Como se tudo não
bastasse, o paraíso, o purgatório dos católicos e o inferno,
há ainda que considerar a admissão do pecado original, segundo o
qual todos os homens ao nascer, trazem-no consigo.
Ora, ninguém jamais
foi consultado a respeito de seu desejo ou não de nascer. Assim
sendo, como atribuir culpa de qualquer natureza a quem não teve a
oportunidade de manifestar vontade própria. Quanta injustiça!
Condenar inocentes por antecipação. O próprio Deus e o próprio
Cristo revoltar-se-iam por certo ante tão injusta legislação,
se os próprios existissem.
II
As
Provas e as Contra Provas
A Igreja serviu-se de
farta documentação, conforme já mencionamos anteriormente, com
intenção de provar a existência de Cristo. No entanto, a
história ignora-o completamente. Quanto aos autores profanos que
pretensamente teriam escrito a seu respeito, foram nesta parte
falsificados. Por outro lado, documentos históricos demonstram
sua inexistência. As provas históricas merecem nosso crédito,
porque pertencem à categoria dos fatos certos e positivos, e
constituem testemunhos concretos e válidos de escritores de
determinadas escolas.
A interpretação da
Bíblia e da mitologia comparada não resiste a uma confrontação
com a história. Flávio Josefo, Justo de Tiberíades, Filon de
Alexandria, Tácito, Suetônio e Plínio, o Jovem, teriam feito em
seus escritos, referências a Jesus Cristo. Todavia, tais escritos
após serem submetidos a exames grafotécnicos, revelaram-se
adulterados no todo ou em parte, para não se falar dos que foram
totalmente destruídos. Além disso, as referências feitas a
Crestus, Cristo ou Jesus, não são feitas exatamente a respeito
do Cristo dos Cristãos. Seria mesmo difícil estabelecer qual o
Cristo seguido pelos cristãos, visto que esse era um nome comum
na Galiléia e Judéia.
Segundo Tácito,
judeus e egípcios foram expulsos de Roma por formarem uma só e
mística superstição cristã. As expulsões ocorreram duas vezes
no tempo de Augusto e a terceira vez no governo de Tibério, no
ano 19 desta era. Tais expulsões desmentem a existência de
Jesus, porquanto, ocorreram quando ainda o nome de cristão
aplicava-se a superstição judaico-egípcia, a qual se confundiu
com o cristianismo.
Filon de Alexandria,
apesar de ter contribuído poderosamente para a formação do
cristianismo, seu testemunho é totalmente contrário à
existência de Cristo. Filon havia escrito um tratado sobre o Bom
Deus – Serapis –, tratado este que foi destruído. Os
evangelhos cristãos a ele muito se assemelham, e os
falsificadores não hesitaram em atribuir as referências como
sendo feitas a Cristo.
Os historiadores
mostram que essa religião nasceu em Alexandria, e não em Roma ou
Jerusalém. Fazem ver que ela nasceu das idéias de Filon que,
platonizando e helenizando o judaísmo, escreveu boa parte do
Apocalipse. A mesma transformação que o cristianismo dera ao
judaísmo ao introduzir-lhe o paganismo e a idolatria, Filon
imprimira a essa crença, até então apenas terapeuta, dando-lhe
feição grega, de cunho platônico.
Embora tenha sido de
certo modo o precursor do cristianismo, não deixou a menor prova
de ter tomado conhecimento da existência de Jesus Cristo, o mago
rabi, e isto é lógico porque o cristianismo só iria ser
elaborado muito depois de sua morte.
Bastaria o silêncio
de Filon para provar estarmos diante de uma nova criação
mitológica, de cunho metafísico. Entretanto, escrevendo como
cristão, os lançadores do cristianismo louvaram-se nas suas
idéias e escritos. Tivesse Jesus realmente existido, jamais Filon
deixaria de falar em seu nome, descreveria certamente sua vida
miraculosa. Filon relata os principais acontecimentos de seu
tempo, do judaísmo e de outras crenças, não mencionando,
porém, nada sobre Jesus. Cita Pôncio Pilatos e sua atuação
como Procurador da Judéia, mas não se refere ao julgamento de
Jesus a que ele teria presidido.
Fala igualmente dos
essênios e de sua doutrina comuna dizendo tratar-se de uma seita
judia, com mosteiro à margem do Jordão, perto de Jerusalém.
Quando no reinado de Calígula esteve em Roma defendendo os
judeus, relata diversos acontecimentos da Palestina, mas não
menciona nada a respeito de Jesus, seus feitos ou sua sorte e
destino.
Filon, que foi um dos
judeus mais ilustres de seu tempo, e sempre esteve em dia com os
acontecimentos, jamais omitiria qualquer notícia acerca de Jesus,
cuja existência, se fosse verdadeira, teria abalado o mundo de
então. Impossível admitir-se tal hipótese, portanto.
Por isso é que M.
Dide fez ver que, diante do silêncio de homens extraordinários
como Filon, os acontecimentos narrados pelos evangelistas não
passam de pura fantasia religiosa. Seu silêncio é a sentença de
morte da existência de Jesus.
O mesmo silêncio se
estende aos apóstolos, assinala Emílio Bossi. Evidencia que tudo
quanto está contido nos Evangelhos refere-se a personalidades
irreais, ideais, sobrenaturais de inexistentes taumaturgos. O
silêncio de Filon e de outros se estende não apenas a Jesus, mas
também aos seus pretensos apóstolos, a José, a Maria, seus
filhos e toda a sua família.
Flávio Josefo, tendo
nascido no ano 37, e escrevendo até 93 sobre judaísmo,
cristianismo terapeuta, messias e Cristos, nada disse a respeito
de Jesus Cristo. Justo de Tiberíades, igualmente não fala em
Jesus Cristo, conquanto houvesse escrito uma história dos judeus,
indo de Moisés ao ano 50. Ernest Renan, em sua obra “Vie de
Jesus”, apesar de ter tentado biografar Jesus, reconhece o
pesado silêncio que fizeram cair sobre o pretenso herói do
cristianismo.
Os Gregos, os romanos
e os hindus dos séculos I e II jamais ouviram falar na
existência física de Jesus Cristo. Nenhum dos historiadores ou
escritores, judeus ou romanos, os quais viveram ao tempo em que
pretensamente teria vivido Jesus, ocupou-se dele expressamente.
Nenhum dedicou-lhe atenção. Todos foram omissos quanto a
qualquer movimento religioso ocorrido na Judéia, chefiado por
Jesus.
A história não só
contesta a tudo o que vem nos Evangelhos, como prova que os
documentos em que a Igreja se baseou para formar o cristianismo
foram todos inventados ou falsificados no todo ou parte, para esse
fim. A Igreja sempre dispôs de uma equipe de falsários, os quais
dedicaram-se afanosamente a adulterar e falsificar os documentos
antigos com o fim de pô-los de acordo com os seus cânones.
O piedoso e culto
bispo de Cesaréia, Eusébio, como muitos outros tonsurados,
receberam ordens papais para realizar modificações em
importantes papéis da época, adulterando-os e emendando-os
segundo suas conveniências. Graças a esses criminosos arranjos,
a Igreja terminaria autenticando impunemente sua novela religiosa
sobre Jesus Cristo, sua família, seus discípulos e o seu tempo.
Conan Doyle
imortalizou o seu personagem, Sherlock Holmes, assim como Goethe
ao seu Werther. Deram-lhes vida e movimento como se fossem pessoas
reais, de carne e ossos. Muitos outros escritores imortalizaram-se
também através de suas obras, contudo, sempre ficou patente
serem elas pura ficção, sem qualquer elo que as ligue com a vida
real. Produzem um trabalho honesto e honrado aqueles que assim
procedem, ao contrário daqueles que deturpam os trabalhos
assinados por eminentes escritores, com o objetivo premeditado de
iludir a boa fé do próximo. E procedimento que, além de
criminoso, revela a incapacidade intelectual daqueles que precisam
se valer de tais meios para alcançar seus escusos objetivos.
Berson, citado por
Jean Guitton em “Jesus”, disse que a inigualável humildade de
Jesus dispensaria a historicidade; entretanto, erigiu os
Evangelhos como documento indiscutível como prova, o que a
ciência histórica de hoje rejeita. Só depois de muito entrado
em anos é que se tornaria indiferente para com a pirracenta
crença religiosa dos seus antepassados, como aconteceu com mentes
excepcionalmente cultas, tornadas ilustres pelo saber e pelo
conhecimento e não apenas pelo dinheiro.
Diante da história,
do conhecimento racional e científico que presidem aos atos da
vida humana, muitos já se convenceram da primária e irreal
origem do cristianismo, o qual nada mais é do que uma síntese do
judaísmo com o paganismo e a idolatria greco-romana do século I.
Graças ao trabalho
de notáveis mestre de Filosofia e Teologia da Escola de
Tübíngen, na Alemanha, ficou provado que os Evangelhos e mesmo
toda a Bíblia não possuem valor histórico, pondo-se em dúvida
conseqüentemente tudo quanto a Igreja impôs como verdade sobre
Jesus Cristo. Tudo o que consta dos Evangelhos e do Novo
Testamento são apenas arranjos, adaptações e ficções, como o
próprio Jesus Cristo o foi.
Através da pesquisa
histórica e de exames grafotécnicos ficou evidenciado que os
escritos acima referidos são apócrifos. De sorte que, não
servindo como documentos autênticos, devem ser rejeitados pela
ciência. Jean Guitton diz que o problema de Jesus varia e acordo
com o ângulo sob o qual seja examinado: histórico, filosófico
ou teológico.
A história exige
provas reais, segundo as quais se evidenciem os movimentos da
pessoa ou do herói no palco da vida humana, praticando todos os
atos a ela concernentes, em todos os seus altos e baixos. Pierre
Couchoud, igualmente citado por Guitton, sendo médico e
filósofo, considerou Jesus como tendo sido “a
maior existência que já houve, o maior habitante da terra”,
entretanto, acrescentou: “não existiu no sentido
histórico da palavra: não nasceu. Não sofreu sob Pôncio
Pilatos, sendo tudo uma fabulação mítica”.
A passagem de Jesus
pela terra seria o milagre dos milagres: “o continente, embora
fosse o menor, contivera o conteúdo, que era o maior!” A
Filosofia quer fatos para examinar e explicar à luz da razão,
generalizando-o. No que se refere à existência de Jesus, é
patente a impossibilidade de generalização, porquanto, na
qualidade de mito, como os milhares que o antecederam, sua
personalidade é apenas fictícia, por conseguinte, nenhum
material pode oferecer à Filosofia para ser sistematizado,
aprofundado ou explicado.
No tocante à
Teologia, cabe-lhe apenas a parte doutrinária acerca das coisas
divinas. A ela, interessa apenas incutir nas mentes os seus
princípios, sem, contudo, procurar neles o que possa existir de
concreto, o que inclusive seria contrário aos interesses
materiais, daqueles aos quais aproveita a religião. Os
Enciclopedistas mostraram como eram tolos e irracionais os dogmas
da Igreja, lembrando ainda que ela era um dos mais fortes pilares
do feudalismo escravocrata.
Voltaire mostrou as
coincidências entre o Evangelho de João e os escritos de Filon,
lembrando ter sido ele um filósofo grego de ascendência judia,
cujo pai, um outro judeu culto, teria sido contemporâneo de
Jesus, se ele tivesse realmente existido. A filosofia religiosa de
Filon era a mesma do cristianismo, tanto que inicialmente foi
cogitada sua inclusão entre os fundadores da nova crença.
Contudo, após exame rigoroso de sua obra, foram encontradas
idéias opostas aos interesses materiais dos lideres cristãos da
época.
Devemos aos
Enciclopedistas, bem como a Voltaire, o incentivo para que muitos
pensadores futuros pudessem desenvolver um trabalho livre, na
pesquisa da verdade. As convicções de Voltaire são o fruto de
profundo estudo das obras de Filon. Os racionalistas,
posteriormente, servindo-se de seus escritos, concluíram que a
Igreja criou seus dogmas de acordo com a lenda e o mito,
impondo-os a ferro e fogo.
Bauer, aplicando os
princípios hegelianos na Universidade de Tübingen, concluiu que
os Evangelhos haviam sido escritos sob a influência judia, de
acordo com seu gosto. Posteriormente, interesses materiais e
políticos motivaram alterações nos mesmos. Em vista de tais
interesses é que Pedro, o pregador do cristianismo nascente, que
era pró-judeu, teve de ser substituído por Paulo, favorável aos
romanos. E Marcião teria sido o autor dos escritos atribuídos ao
inexistente Paulo.
O mérito da Escola
de Tübingen consiste em haver provado que os Evangelhos são
apócrifos, e assim não servem como documento aceitável pela
história. Levando ao conhecimento do mundo livre que os
fundamentos do cristianismo são mistificações puras, os mestres
da referida Escola abalaram os alicerces de uma empresa, que há
séculos explora a humanidade crente, vendendo o nome de Deus a
grosso e a varejo.
Tudo nos leva a crer
que, no futuro, o conhecimento científico exigirá bases sólidas
para todas as coisas, quando então as religiões não mais
prevalecerão, porquanto, não poderão contribuir para a ciência
ou para a história, com qualquer argumento sólido e fiel.
Ademais, não nos
parece lógico que o homem atual, o qual já atingiu um tão
elevado nível de desenvolvimento, o que se verifica em todos os
setores do conhecimento, tais como científico, tecnológico e
filosófico, permaneça preso a crenças em deuses inexistentes,
em mitos e tabus.
Diz-se que a Bíblia,
o livro sagrado dos cristãos, do qual se valem eles para provar a
existência de seu Deus e Jesus Cristo, seu filho unigênito, foi
escrito sob a inspiração divina. O Próprio Deus tê-lo-ia
escrito, através de homens inspirados por ele, claro. A doutrina
cristã ensina que Deus, além de onipotente, é onipresente e
onisciente. Sendo dotado de tais atributos – onisciência e
onipresença –, seria de se esperar que Deus, ao ditar aos
homens inspirados o que deveriam escrever, não se restringisse
apenas ao relato das coisas, fatos ou lugares então conhecidos
pelos homens.
Sendo onipresente,
deveria estar no universo inteiro. Conhecê-lo e levá-lo ao
conhecimento dos homens, e não apenas limitar-se a falar dos
povos ou lugares que todos conheciam ou sabiam existir. Sendo
onisciente, deveria saber de todas s coisas de modo certo,
correto, exato, e assim inspirar ou ensinar.
Todavia, aconteceu
justamente o contrário. A Bíblia, escrita por homens inspirados
por Deus onipresente e onisciente, está repleta de erros, os mais
vulgares e incoerentes, revelando total ignorância acerca da
verdade e de tudo mais.
Vejamos apenas um
exemplo. Diz a Bíblia que o sol, a lua e as estrelas foram
criadas em função da terra: para iluminá-la. Seria o centro do
universo, então, o que é totalmente falso. Hoje, ou melhor, há
muito tempo, todos sabemos que a terra é apenas um grão de areia
perdido na imensidão do universo, sendo mesmo uma das menores
porções que o compõe, inclusive dentro do sistema solar de que
faz parte.
Como teria Josué
feito parar o sol, a fim de prolongar o dia e ganhar sua batalha
contra os canamitas, sem acarretar uma catástrofe? Decididamente,
quem escreveu tais absurdos, sendo homem, sujeito a falhas e
erros, é perdoável. Entretanto, sendo um Deus onipresente e
onisciente, ou por sua inspiração, é inconcebível. E mais
inconcebível ainda é que o homem moderno permaneça escravo
desta ou de qualquer outra religião. Dispondo de modernos meios
de difusão e divulgação da cultura, o homem não pode ignorar o
quanto é falsa a doutrina cristã, além de absurda, o mesmo
estendendo-se a qualquer outra forma de culto ou religião. Como
entender que sendo Deus onipresente e onisciente, não saberia que
todos os corpos do universo possuem movimento, e que este os
mantém dentro de sua órbita, sem atropelos ou abalroamento?
Quando Jeová
resolveu disciplinar o comportamento dos hebreus, marcou encontro
com Moisés, no Monte Sinai, para lhe entregar as tábuas da lei.
Fato idêntico acontecera muito antes, quando Hamurabi teria
recebido das mãos do deus Schamash a legislação dos babilônios
no século XVII a.C.. A mesma foi encontrada em Susa, uma das
grandes metrópoles do então poderoso império babilônio,
encontrando-se atualmente guardada no Museu do Louvre, em Paris.
No que concerne aos
Evangelhos, foram escritos em número de 315, copiando-se sempre
uns aos outros. No Concílio de Nicéia, tal número foi reduzido
para 40, e destes foram sorteados os 4 que até hoje estão
vigorando.
A. Laterre, entre
outros escritores, assinala ter sido o Evangelho de Marcos o mais
antigo, e haver servido de paradigma para os outros, os quais não
guardaram sequer fidelidade ao original, dando margem a choques e
entrechoques de doutrina.
Após o Evangelho de
Marcos, começaram a surgir os demais que, alcançando elevado
número, foram reduzidos. A escolha não visou os melhores, o que
seria lógico, mas baseou-se tão-somente no prestigio político
dos bispos das regiões onde haviam sido compostos.
A. Laterre patenteou
igualmente, em “Jesus e sua doutrina”, que a lenda composta
pelos fundadores do cristianismo, para ser admitida pelos homens
como verdade, fora copiada de fontes mitológicas muito anteriores
ao próprio judaísmo, remontando aos antigos deuses hindus,
persas ou chineses.
No
século II, quando começou a aparecer a biografia de Jesus, havia
apenas o interesse político e material em se manter a sua santa
personalidade idealizada. Constantino, no século IV, tendo
verificado que suas legiões haviam-se tornado reticentes no
cumprimento de suas ordens contra os cristãos, resolveu mudar de
tática e aderir ao cristianismo. Percebendo que os bispos de
Alexandria, Jerusalém, Edessa e Roma tinham a força necessária
para fazer-lhe oposição, sentiu-se na contingência de ceder
politicamente, com o objetivo de conseguir obediência total e
unificar o império. De sorte que sua adesão ou conversão ao
cristianismo não se baseou em uma convicção intima, espiritual,
porém, resultou de conveniências políticas.
Embora não crendo na
religião cristã, percebeu que a cruz dar-lhe-ia a força que lhe
faltava para tornar-se o imperador único e obedecido cegamente.
Daí a história do sonho que tivera antes de uma batalha, segundo
o qual vira a cruz desenhada no céu e estas palavras escritas
abaixo: “in hoc signo vincis”, com este sinal, vencerás. Não
era cristão verdadeiro, apenas fingia sê-lo para conseguir os
seus objetivos.
Dujardin conta-nos
que o cristianismo só surgiu a partir do ano 30, graças a um
rito em que se via a morte e a ressurreição de Jesus, o qual
seria uma divindade pré-cristã. Nesta seita, os seus adeptos
denominavam-se apóstolos, significando missionários, os que
traziam uma mensagem nova. Os apóstolos desse Jesus juravam
terem-no visto, após sua morte, ressuscitar e ascender ao céu.
Entretanto, não era este o Jesus dos cristãos.
O Padre Aífred
Loisy, diante do enorme descrédito que o mito do cristianismo
vinha sofrendo nos meios cultos de Paris, resolveu pesquisar-lhe
as origens, visando assim desfazer as objeções apresentadas de
modo seguro e bem fundamentado. Buscava a verdade para mostrá-la
aos demais. Entretanto, ao fazer seus estudos, o Padre Loisy
constatou que realmente a crítica havia se baseado em fatos
incontestáveis. Por uma questão de honra, não poderia ocultar o
resultado de suas pesquisas, publicando-o logo em seguida. Sendo
tal resultado contrário fundamentalmente aos cânones da Igreja,
foi expulso de sua cátedra de Filosofia, na Universidade de
Paris, e excomungado pelo Papa, em 1908.
O Pe. Loisy havia
concluído que os documentos nos quais a Igreja firmara-se para
organizar sua doutrina provieram do ritual essênio. Jesus Cristo
não tivera vida física. Era apenas o reaproveitamento da lenda
essênia do Crestus, o seu Messias. Verificou-se também que as
Paulinianas, de origem insegura, haviam sido refundidas em vários
pontos fundamentais e por diversas vezes, antes de serem
incluídas definitivamente nos Evangelhos. Do mesmo modo chegou à
conclusão de que os Evangelhos não poderiam servir de base para
a história, nem para provar a vida de Jesus, dada a sua
inautenticidade.
Por sorte sua, já
não mais existia a Santa Inquisição; do contrário, o sábio
Padre Loisy teria sido queimado vivo. Os documentos relativos ao
governo de Pilatos, na Judéia, nada relatam a respeito de alguém
que, se intitulando de Jesus Cristo, o Messias ou o enviado de
Deus, tenha sido preso, condenado e crucificado com assentimento
ou mesmo contra sua vontade, conforme narram os evangelhos. Não
tomou conhecimento jamais de que um homem excepcional praticasse
coisas maravilhosas e sobrenaturais, ressuscitando mortos e
curando doentes ao simples toque de suas mãos, ou com uma
palavra, apenas.
Se Pôncio Pilatos,
cuja existência é real e historicamente provável, que estava no
centro dos acontecimentos da época como governador da Judéia,
ignorou completamente a existência tumultuada de Jesus, é que de
fato ele não existiu. Alguém que, pelos atos que lhe são
atribuídos, chega mesmo ao cúmulo de ser aclamado “Rei dos
Judeus” por uma multidão exaltada, como ele o foi, não poderia
passar despercebido pelo governador da região.
O imperador Tibério,
inclusive, jamais soube de tais ocorrências na Judéia. Estranho
que ninguém o informasse de que um povo, que estava sob o seu
domínio, aclamava um novo rei. Ilógico. A ele, Tibério, é que
caberia nomear um rei, governador ou procurador.
Prosper Alfaric, em
L'Ecole de la Raison, assinala as invencíveis dificuldades do
cristianismo em conciliar a fé com a razão. Por isso, a nova
crença teve de apoderar-se das lendas e crenças dos deuses
solares, tais como Osíris, Mitra, Ísis, Átis e Hórus, quando
da elaboração de sua doutrina. Expôs, igualmente, que os
documentos descobertos em Coumrã, em 1947, eram o elo que faltava
para patentear que Cristo é o Crestus dos essênios, uma outra
seita judia.
O cristianismo nada
mais é, então, do que o sincretismo das diversas seitas judias,
misturadas às crenças e religiões dos deuses solares, por serem
as religiões que vinham predominando há séculos. A palavra “evangelho”
em grego significa “boa nova”, já figura na Odisséia de
Homero, Século XII, a.C.. Foi depois encontrada também numa
inscrição em Priene, na Jônia, numa frase comemorativa e de
endeusamento de Augusto, no seu aniversário, significando a “boa
nova” no trono. E isto ocorreu muito antes de idealizarem Jesus
Cristo.
Conforme já
mencionamos anteriormente, no inicio do cristianismo, os
evangelhos eram em número de 315, sendo posteriormente reduzidos
para 4, no Concílio de Nicéia. Tal número indica perfeitamente
as várias formas de interpretação local das crenças religiosas
da orla mediterrânea acerca da idéia messiânica lançada pelos
sacerdotes judeus. Sem dúvida, este fato deve ter levado Irineu a
escrever o seguinte: “Há apenas 4 Evangelhos, nem mais um, nem
menos um, e que só pessoas de espírito leviano, os ignorantes e
os insolentes é que andam falseando a verdade”. A verdade da
Igreja, dizemos nós.
Havia, então, os
Evangelhos dos naziazenos, dos judeus, dos egípcios, dos
ebionistas, o de Pedro, o de Barnabé, entre outros, os quais
foram queimados, restando apenas os 4 sorteados e oficializados no
Concílio de Nicéia. Celso, erudito romano, contemporâneo de
Irineu, entre os anos 170 e 180, disse: “Certos
fiéis modificaram o primeiro texto dos Evangelhos, três, quatro
e mais vezes, para poder assim subtrai-los às refutações”.
Foi necessária uma
cuidadosa triagem de todos eles, visando retirar as divergências
mais acentuadas, sendo adotada a de Hesíquies, de Alexandria; e
de Pânfilo, de Cesaréía e a de Luciano, de Antióquia. Mesmo
assim, só na de Luciano existem 3500 passagens redigidas
diferentemente. Disso resulta que, mesmo para os Padres da Igreja,
os Evangelhos não são fonte segura e original.
Os Evangelhos que
trazem a palavra “segundo”, que em grego é “cata”, não
vieram diretamente dos pretensos evangelistas. A discutível
origem dos Evangelhos explica porque os documentos mais antigos
não fazem referência à vida terrena de Jesus. Nos Evangelhos,
as contradições são encontradas com muita freqüência. Em
Marcos, por exemplo, em 1:1-17: “a
linhagem de Jesus vem de Abraão, em 42 gerações”; ao
passo que em Lucas 2:23-28 lê-se que proviera diretamente de
Adão e Eva, sendo que de Abraão a Jesus teriam havido 43
gerações.
Eusébio, comentando
o assunto e não sabendo como dirimir a questão, disse: “Seja
lá o que for, só o Evangelho anuncia a verdade”.(?) Tais
divergências, entretanto, parecem indicar que os Evangelhos não
se destinavam inicialmente à posteridade, visando tão-somente a
catequese imediata de povos isolados uns dos outros. Os escritos
destinados a um povo dificilmente seriam conhecidos dos outros.
O Evangelho de Mateus
teria sido destinado aos judeus, arranjado para agradá-los. Por
isso, não fala nos vaticínios nem no Messias. Por isso ainda é
que puseram na boca de Jesus as palavras seguintes: “Não vim
para abolir as leis dos profetas, mas sim para cumpri-las”. Tudo
indica ter sido feito em Alexandria, porquanto, o original em
hebraico jamais existiu. Baur provou, entretanto, que as
Epístolas são anteriores aos Evangelhos e o Apocalipse, o mais
antigo de todos, do ano 68. Todos os escritos do cristianismo
desse tempo falam apenas no Logos, o Cordeiro Pascoal, imolado
desde o princípio dos tempos, referindo-se à personalidade ideal
de Jesus Cristo.
Justino, filósofo e
apologista cristão, escrevendo em torno do ano 150, não emprega
a palavra Evangelho nem uma vez. Isto mostra que ele, ainda nessa
época, ignorava-a, não tendo conhecimento de sua existência.
Justino ignorava igualmente as paulinianas, Paulo e os Atos dos
apóstolos, o que prova que foram inventados posteriormente.
Marcião, no ano de
140, trouxe as Epístolas a Roma, as quais não foram inicialmente
consideradas merecedoras de fé. Sofreu rigorosa triagem, sendo
cortada muita coisa que não convinha à Igreja. Marcião fora
contemporâneo de Justino. As Epístolas trazidas por ele eram
endereçadas aos Romanos, aos Gálatas e aos Coríntios.
Apresentavam Jesus como um Deus encarnado. Teria nascido de uma
mulher e sofrera o martírio para resgatar os pecados da
humanidade, isto é, dos ocidentais, porque os orientais não
tomaram conhecimento da personalidade de Jesus, seus milagres e
sua pregação e do seu romance religioso.
Engels
constatou que as Epístolas são 60 anos mais novas do que o
Apocalipse. E, ainda, os cristãos contrários ao bispo de Roma
rejeitaram-nas durante séculos. Foi o que se deu com os ebionitas
e os severianos, conforme Eusébio escreveu e Justino confirmou. O
Apocalipse fala em um cordeiro com sete cornos e sete olhos, o
qual foi imolado desde a fundação do mundo (13-8). O Apocalipse
foi composto apenas em 68, sendo o mais antigo de todos os
escritos cristãos.
Lutero e Swinglio
disseram que o Apocalipse foi incluído nos Evangelhos por engano,
tendo a Igreja de inventar, por isso, a ordem cronológica dos
seus livros. Hoje se pode provar que o Apocalipse surgiu entre os
anos 68 e 70; os Evangelhos, no século II, e os Atos dos
Apóstolos são os mais recentes de todos. Eusébio em sua “História
Eclesiástica”, 4-23, diz: “Compus
as Epistolas conforme a vontade do irmão: mas os ‘apóstolos do
diabo' tacharam-nas de inverídicas contando-lhes certas coisas e
acrescentando outras”.
Irineu, ao mesmo
tempo, ordenava ao copista: “Confronta toda cópia com este
original utilizado por ti, e corrige-a cuidadosamente”. Não te
esqueças de reproduzir em tua cópia o pedido que te faço. Essas
citações servem para medirmos que tipo de santidade havia entre
os bispos e seus calígrafos, na arte eusebiana de eméritos
falsificadores de documentos importantes.
Com isto, deram
autenticidade a todas as invencionices do cristianismo e
legitimaram sua liderança na posse material do que pertencia aos
outros. Irineu ainda registrou o seguinte: “Ouvi dizer que não
acreditam esteja isto nos Evangelhos, se não se encontrar nos
arquivos”. Ao que Eusébio respondera: “É
preciso demonstrá-lo”.
Uma excelente prova
da existência de Jesus seria uma comunicação feita por Pilatos
a seu respeito. Entretanto, tal documento não existe. Justino,
instado pelos falsificadores, referiu-se a Jesus, contudo, dada a
sua honradez pessoal, no caso do seu escrito ser autêntico,
fê-lo de modo inseguro e hesitante. Tertuliano, que é mais
seguro do que ele, afirmou que esse valioso documento deverá ser
encontrado nos arquivos imperiais. Contudo, a Igreja apesar de
haver se apoderado de Roma a partir do século IV, não teve a
coragem de apresentar essa indispensável jóia documentária, a
qual de certo seria refutada pela ciência e pelo conhecimento.
Mesmo assim, a partir
do século IV, essa prova espúria foi produzida; contudo, a
Igreja não teve a petulância de submetê-la à grafotécnica.
Daniel Rops, embora fosse um apaixonado cristão, reconheceu a
veracidade dessa falsificação dizendo que: “a que arranjaram
era uma carta enviada a Cláudio, que reinou de 41 a 44, e não a
Tibério, sob cujo governo Pilatos fora Procurador da Judéia”.
No Apocalipse João,
escreveu: “Se alguém acrescentar alguma coisa nisto, Deus
castigará com as penas descritas neste livro; se alguém cortar
qualquer coisa, Deus cortará sua parte na árvore da vida e na
cidade santa descrita neste livro”. Ai está mais uma prova de
como as falsificações eram usuais na fase da Igreja nascente. O
mais interessante é essa gente falar em Deus, como se fosse coisa
cuja existência já tivesse sido provada, não se justificando
mais que o conhecimento e a razão estudassem as bases dessa
existência.
Os padres
mostravam-se estar de tal modo familiarizados com Deus e sua
vontade que por isso achavam certo e justo julgar e queimar vivos
a todos os que deles discordassem. Entretanto, embora dessem a
impressão de estar em contato com Deus, usavam de processos
criminosos, dos quais todos os ociosos usam para sacar contra o
seu meio social. Assim é que hoje se pode provar que o
cristianismo foi construído sobre um terreno atapetado de
mentiras, falsificações e mistificações.
O Novo Testamento
atualmente oficializado é cópia de um texto grego do século IV.
É exatamente o sinótico descoberto em 1859, em um convento do
Monte Sinai, onde vem informada a origem grega. Os originais do
mesmo estão guardados nos museus do Vaticano e de Londres. Foram
publicados com as devidas corrigendas, feitas por Hesíquios, de
Alexandria.
Um papiro encontrado
no Egito, em 1931, apresenta-nos uma ordem cronológica totalmente
diferente da oficializada pela Igreja. Atualmente, as fontes
testamentárias aceitáveis são as do século II em diante,
provindas de Justino, Taciano, Atenágoras, Irineu e outros, os
quais são considerados os verdadeiros criadores do cristianismo.
Taciano foi o “bem
amado” discípulo de Justino. Ele, entretanto, omite a
genealogia de Jesus, dizendo apenas que ele descendia de reis
judeus, de modo muito vago, divergindo assim da orientação
oficializada. Irineu foi que sistematizou o cristianismo. Foi ele
a fonte em que Eusébio inspirou-se. Por isso é que daí em
diante seria obrigatória a confrontação entre os dois textos. O
bispo de Cesaréia fora encarregado pelo todo poderoso bispo de
Roma de falsificar tudo quanto prejudicasse os interesses
materiais da Igreja de então. De modo que, por onde passou a mão
de Eusébio, foi tudo conspurcado criminosamente contra a verdade.
Eusébio foi
realmente um bispo que cria apaixonadamente na divindade de Jesus
Cristo, contudo, já conhecia o poder que possuía o bispo de
Roma. Graças a Eusébio e outros iguais a ele, tornou-se uma
temeridade descrer-se na verdade oficializada pela Igreja. Após
tantas falsificações, todos ficaram realmente inseguros quanto
à verdadeira origem do cristianismo, tal a tumultuação impressa
por Eusébio.
Tertuliano e Clemente
de Alexandria lutaram um pouco para sanar essas fontes, anulando
boa parte do que restara das criminosas unhas de Eusébio. Jacob
Buckhardt, examinando essa documentação, concluiu que o Novo
Testamento merece confiança.
Em Coumrã, em 1947,
como á vimos, foram encontrados documentos com escrita em
hebraico e não em grego, falando em Crestus não em Cristo. Ali,
Habacuc refere-se à perseguição sofrida por essa seita judia,
assim como a morte de Crestus, igualmente traído por Judas, um
sacerdote dissidente. A Igreja, ao ter conhecimento da existência
de tais documentos, pretendeu informar que Crestus era o Cristo de
sua criação, contudo, verificou-se que eles datavam de pelo
menos um século antes do lançamento do romance do Gólgota.
Além disso, continham revelações contrárias aos interesses da
Igreja. Eles relatam as lutas de morte em que viviam as diversas
seitas do judaísmo.
A Didaquê não pôde
entrar nos Evangelhos, devendo silenciar completamente a respeito
da pretensa passagem de Jesus pela terra. De qualquer forma, a
lenda que existia em torno no nome de Crestus foi aproveitada na
época porque, sendo uma seita comunista, suas pregações iriam
servir para atrair ao cristianismo a atenção dos escravos, em
luta contra os seus senhores, a eterna luta do pobre contra o
rico.
Escavações feitas
em Jerusalém desenterraram velhos cemitérios, onde foram
encontradas muitas cruzes do século I e mesmo anteriores.
Todavia, apesar de já ser usada nessa época, só a partir do
século IV é que a Igreja iria oficializá-la como seu emblema.
Levantamentos arqueológicos posteriores provariam que a cruz já
era um piedoso emblema usado desde há milênios.
Orígenes,
polemizando contra Celso, um dos mais cultos escritores romanos de
seu tempo, e que mais combateram as bases falsas da Igreja e de
Jesus Cristo, acusa Flávio Josefo por não haver admitido a
existência de Jesus. Flávio não poderia referir-se a Jesus nem
ao cristianismo porque ambos foram arranjados depois de sua morte.
Assim, os livros de Flávio que falam de Jesus foram compostos, ou
melhor, falsificados muito tempo após sua morte, no decorrer do
século III, conforme as conclusões alcançadas pelos mestres da
Escola de Tübingen.
Sêneca, que foi
preceptor de Nero, suicidando-se para não ser assassinado por
ele, já pensava mais ou menos como os cristãos. Do que se
conclui que as idéias de que se serviu o cristianismo para se
fundamentar são emprestadas das lendas que giravam em torno de
outros Cristos Messias, assim como de outros cultos. Nada tendo,
portanto, de original. Sêneca acreditava em um Deus único e
imaterializável.
Por tudo isso, vemos
que os líderes do cristianismo nada mais fizeram do que se
apropriar das idéias já existentes. Apenas tiveram o cuidado de
promover as modificações necessárias, com vistas a melhor
consecução dos seus objetivos materiais. Sêneca, embora não
fazendo em seus escritos qualquer alusão à existência de Jesus
Cristo, teve muitos de seus escritos aproveitados pelo
cristianismo nascente.
Em Tácito, escritor
do século II, encontram-se referências a respeito de Jesus e
seus adeptos. Contudo, exames grafotécnicos demonstraram que tais
referências são falsas, e resultam de visível adulteração dos
seus escritos. Suetônio, que existiu quando Jesus teria vivido,
escreveu a “História dos Doze Césares”, relatando os fatos
de seu tempo. Referindo-se aos judeus e sua religião, apenas
falou em “distúrbios de judeus exaltados em torno de Crestus”.
Por aí se vê que ele não se referia aos cristãos, porquanto,
eles sempre se mostraram humildes e obedientes à ordem
constituída, evidentemente a fim de passar, tanto quanto
possível, despercebidos. Desse modo, iriam solapando o poder
imperial, manhosamente, como realmente aconteceu.
Suetônio escreveu
ainda que haviam supliciado alguns cristãos que eram gente que se
dedicava demasiado a tolas superstições, orientadas por uma
idéia malfazeja. Disse mais que Nero tivera de mandar expulsar os
judeus de Roma, porque eles estavam sempre se sublevando,
instigados por Crestus. Os cristãos estavam sempre organizados de
modo a atrair aos escravos, sem, contudo, desagradar às
autoridades. Assim sendo, jamais provocariam tumultos. Os
cristãos aos quais Suetônio refere-se poderiam ser os zilotas,
os essênios ou os terapeutas, mas nunca os cristãos de Jesus
Cristo, porquanto, conforme já dissemos acima, os cristãos eram
ensinados a não provocar desordens.
Plínio, o Jovem,
viveu entre os anos 62 e 113, tendo sido subpretor da Bitínia. Na
carta enviada ao imperador, perguntava como agir em relação aos
cristãos, ao que Trajano teria respondido que agisse apenas
contra os que não renegassem à nova fé. Entretanto, não ficou
evidenciado a quais cristãos, exatamente, eram feitas as
referências: se aos crestãos ou aos cristãos. De qualquer
forma, a carta em questão, após ser submetida a exames
grafotécnicos e métodos rádio-carbônicos, revelou haver sido
falsificada.
Justiniano, Imperador
romano, mandou queimar os escritos de Porfírio, através de um
edito, em 448, alegando que: “impelido pela loucura, escrevera
contra a santa fé cristã”.
Vespasiano, ao
morrer, disse: “Que desgraça! Acreditei que me havia tornado um
deus imortal!”. Suas palavras justificam-se pela credulidade
supersticiosa. Partindo do preceito ensinado pelos judeus, aliás,
um falso preceito, de que Cristo havia subido ao céu com corpo e
alma, não seria de estranhar que os imperadores pretendessem
tornar-se deuses, a fim de escapar ao inapelável destino dos que
nascem: a morte.
Calígula, por isso,
fizera-se coroar como Deus-Sol, o Sol Invictus, o Helius. Nessa
época o Império romano, embora em declínio, ainda dominava uma
porção de províncias afastadas de Roma. O homem espoliado pela
força bruta, unificada em torno das regiões, sentindo não ser
possível contar com a justiça humana, passa a esperar pela
justiça dos deuses. Mas, mesmo assim, teriam de apelar para os
deuses dos pobres e não dos ricos, privilegiados e poderosos.
Conta a lenda que
Osíris, o deus solar dos egípcios, foi morto por seu irmão
Seth, o qual dividiu o corpo em 14 pedaços e os espalhou pelo
mundo afora. Ísis, sua esposa e irmã, saiu em busca dos
pedaços, levando seu filho Hórus ao colo. Todos os anos o povo
fazia a festa de Ísis, relembrando o acontecimento. Havendo
conseguido juntar todas a partes do corpo, Osíris ressuscitou,
passando a ser incensado como o deus da morte e da sombra. Fora
uma ressurreição conseguida pelo amor da esposa. Ísis separou a
terra do céu, traçou a órbita dos astros, criou a navegação e
destruiu todos os tiranos. Comandava os rios, as vagas e os
ventos. Seu culto assemelhava-se muito ao de Astartê, de Adônis
e de Átis, religiões muito aparentadas entre si, dominando toda
a orla do Mediterrâneo. Seu culto era uma reminiscência do culto
de Tamus, um deus babilônio, cuja doutrina ensinava que os deuses
nasciam e renasciam, ressuscitando-se.
O judaísmo e, mais
tarde, o cristianismo, beberam dessas fontes grande parte da sua
liturgia. No cristianismo, encontramos Ísis representada pela
Virgem Maria e Hórus transformado em Jesus Cristo. Maria e Jesus,
fugindo de Herodes e indo para o Egito, é a mesma lenda de Ísis
e Hórus, fugindo de Seth.
O
Deus-Homem que morria e ressuscitava já era uma velha “crença
religiosa” naqueles tempos. O cristianismo apenas deu novos
nomes e novas roupagens aos deuses de velhas crenças. A
revelação de Deus aos homens é outra lenda cuja origem perde-se
na noite dos tempos. Muitos séculos antes do surgimento do
judaísmo, Zoroastro ou Zaratrusta havia criado uma religião,
segundo a qual havia uma eterna luta entre o bem e o mal. Aura
Mazzda ou Ormuzd, o deus do fogo e da luz, representava o bem em
luta contra Angra Maniú ou Iarina, o deus das trevas. Nessa luta,
Ormuzd foi auxiliado por seu filho Mitra, o espírito do bem e da
justiça, mediador entre Ormuzd e os homens. Ormuzd mandou seu
filho à terra, o qual nasceu de uma virgem pura e bela, que o
concebeu através de um raio de sol. Morreu e ressuscitou em
seguida.
Essa religião foi
levada para Sicília pelos marinheiros persas, nos últimos
séculos da era passada.
Inventando o
cristianismo, os judeus nada mais fizeram do que sincretizar o
judaísmo ortodoxo com a religião de Mitra, sem esquecer de
Osíris e Átis, cujas religiões eram também muito aceitas em
Roma e Alexandria. Vestígios do mitraísmo foram encontrados em
escavações recentes, feitas em Óstia, os quais datam do século
I. O mitraísmo era praticado em catacumbas, em grutas e em
subterrâneos. O cristianismo copiou-lhe a prática. Daí porque
disseram ter Jesus nascido em uma gruta e, nos primeiros tempos, o
cristianismo foi praticado em catacumbas.
Assim sendo, os
cristãos foram para as catacumbas, não fugindo das autoridades
imperiais, mas tão-somente para observar o ritual mitraico. Os
mitraicos também davam seus banquetes subterrâneos, eram os
banquetes pessoais, comuns nos ritos solares e no judaísmo. Em
ambos, havia o rito do pão e do vinho.
Mitra, o Sol
Invictos, era festejado em dezembro, como Jesus. Outras
aproximações entre o culto de Mitra e o de Jesus, no
cristianismo: o uso da cruz do Sol Radiante, a cruz do Sol
Invictus a qual expandia raios; o uso da pia batismal com a água
benta, as refeições comunais, a destinação do domingo para o
descanso em homenagem ao Senhor; a águia e o touro do ritual
mitraico foram tomados para símbolos dos evangelistas Marcos e
Lucas. Antigos quadros e painéis trazem a figura dos evangelistas
com a cabeça desses animais.
Do judaísmo,
copiaram a crença da imortalidade da alma, a vida no além, o
Inferno, o diabo, a ressurreição, o dia do juízo; práticas e
crenças igualmente existentes no mitraísmo. Graças a esses
espertos arranjos, durante muito tempo, o crente freqüentou
indiferentemente o templo cristão, de Mitra ou de Ísis, crendo
estar na Igreja antiga, onde iam consultar o oráculo.
Por isso, Teofilo, em
Alexandria, mandou construir um templo cristão ao lado de um
templo de Ísis, onde se anunciava o oráculo quando as profecias
vinham de uma revelação astral, mediante a camuflagem das vozes
de antigos bispos ali enterrados. Uma das coisas que favoreceram o
cristianismo foi a abolição do sacrifício sangrento. Muitos
correram a abraçar a nova crença para escapar da morte em um
desses atos propiciatórios.
Spinoza e Hobbes, no
século XVIII, mostraram que o Pentateuco foi composto no século
II a.C. graças ao que o sacerdote judeu havia aprendido no
cativeiro babilônio, fato que aconteceu no século IV a.C. Em
seguida, mostraram uma série de contradições quanto à
cronologia. Em uma das fontes, apresentam Adão e Eva como tendo
sido criados ao mesmo tempo, enquanto em outra informam que ela
havia sido feita de uma costela de Adão. Em uma, o homem aparece
antes dos outros animais, na outra os animais surgem primeiro.
Levantamentos
arqueológicos do começo do século XX, levados a efeito nos
subsolos da Babilônia, provaram que o Deuteronômio resultou, em
grande parte, do que os sacerdotes judeus haviam copiado da
legislação religiosa, civil e criminal de Hamurabi, a qual por
sua vez resultara do que se sabia da civilização acádia, e que
naqueles tempos já era vetusta. Isaías, ao profetizar acerca de
diversos reis de várias épocas, mostra que seu nome foi
inventado séculos depois dos fatos haverem ocorrido. Um desses
reis foi Dano, rei persa que governou em 538 a.C., quando libertou
os judeus do cativeiro.
Herodes morreu no ano
IV a.C., foi responsabilizado pela matança dos inocentes, para
compor o controvertido romance da fuga para o Egito. Tudo o que
até agora temos relatado constitui provas evidentes de que a
Bíblia não tem a antiguidade nem a veracidade que lhe pretendem
imprimir. Os zilotas que seguiam a linha comunista dos essênios
combatiam tanto os judeus ricos como a ocupação romana. Os
essênios, ao professar, faziam votos de pobreza, quando juravam
nada contar da seita para os estranhos e nada ocultar dos
companheiros. Era um dos ramos do judaísmo em que não mais se
oferecia sacrifício sangrento, o que foi copiado pelo
cristianismo.
Os Evangelhos foram
compostos para enquadrar Jesus no que está previsto no versículo
17 do salmo 22. De modo que Jesus não passou de um ator arranjado
para representar o drama do Gólgota. Cumpriu as Escritas como
ator e não como sujeito de uma vida real. Reimarus, filósofo
alemão que morreu em 1768, estudou a fundo a história de Jesus.
Chegou a conclusões irrefutáveis, que assombraram a Igreja muito
mais do que Copérnico ou Darwin. Disse que, se Jesus tivesse
mesmo existido, seria, quando muito, um político ambicioso que
fracassara completamente em suas conspirações contra o governo.
Emmanuel Kant foi o
primeiro filósofo que conseguiu racional e inteligentemente
expulsar Jesus da história humana, através de uma impressionante
e profunda exegese do herói do cristianismo. Volney, em “As
Rumas de Palmira”, após regressar de uma longa viagem de
pesquisas sobre Antigüidade clássica pelo Oriente Médio,
elaborou o trabalho acima referido, no qual nega a existência
física de Jesus Cristo.
Arthur Drews
igualmente viveu muitos anos na Palestina dedicando-se ao estudo
de sua história antiga; concluiu que Jesus Cristo jamais foi um
acontecimento palestino. Examinou todos os lugares pelos quais os
evangelistas pretenderam tivesse Jesus passado. Constatou, então,
que o cristianismo foi totalmente estruturado em mitos;
entretanto, organizado de modo a assumir o aspecto de verdade
incontestável, a ser imposta pela Igreja. Todavia, para sorte
nossa, homens estudiosos e inteligentes contestam as falsas
verdades elaboradas pelo cristianismo, com argumentos
irretorquíveis.
Dupuis disse que,
aqueles que fizeram de Jesus um homem, conseguiram enganar tanto
quanto os que o transformaram em um deus. Em suas observações,
deixa patente que o romance de Jesus nada mais é do que a
repetição das velhas lendas dos deuses solares. Vejamos suas
palavras: “Quando
tivermos feito ver que a pretensa história de um deus que nasceu
de uma virgem, no solstício do inverno, depois de haver descido
aos infernos, de um deus que arrasta consigo um cortejo de doze
apóstolos, – os doze signos solares – cujo chefe tem todos os
atributos de Jano, um deus vencedor do deus das trevas, que faz
transitar o homem império da luz e que repara os males da
natureza, não passa de uma fábula solar... ser-lhe-á pouco
menos indiferente examinar se houve algum príncipe chamado
Hércules, visto haver-se provado que o ser consagrado por um
culto, sob o nome de Jesus Cristo, é o Sol, e que o maravilhoso
da lenda ou do poema tem por objeto este astro, então parecerá
que os cristãos tem a mesma religião que os índios do Peru, a
quem os primeiros fizeram degolar”.
Albert Kalthoft diz
que Jesus personifica o movimento sócio-econômico que no século
I sublevava o escravo, o pobre e o proletário. O seu messianismo
foi espertamente aproveitado pelos líderes dos judeus da
diáspora, aqueles que exploravam a desgraça do judeu pobre em
benefício próprio. Acrescenta que a divergência que existe
entre os quatro evangelistas resulta das várias tendências
daquele movimento social revolucionário nascido em Roma, do qual
a versão palestina é apenas o reflexo.
Salonmon Reinach, em
“Orheus”, salienta o completo silêncio dos autores
contemporâneos de Jesus Cristo acerca de sua pretensa
existência. Tal silêncio verifica-se tanto entre os escritores
judeus como entre os não judeus. Examina em profundidade as “Acta
Pilati” e constata que os acontecimentos que o cristianismo
situou em seu governo não foram do que ressuscitou no equinócio
da primavera, de seu conhecimento, e assim sendo Pilatos jamais
soube qualquer coisa a respeito de Jesus Cristo.
Pierre Louis Couchoud
afirma que a existência real de Jesus é indemonstrável, do
ponto de vista histórico. E acrescenta que as referências feitas
por Flávio Josefo a Jesus não passam de falsificação de
textos, sobejamente provada hoje pelos peritos da crítica
histórica. Os maiores movimentos históricos tiveram como origem
os mitos, cujo papel social é dar forma aos anseios inconscientes
do povo. Compara, inclusive, a lenda de Jesus com a de Guilherme
Tell, na Suíça. Todos sabem tratar-se de uma lenda nacional,
todavia, Guilherme Tell é ali reverenciado como herói verdadeiro
e real. Seu nome promove a união política dos cantões, embora
falem línguas diferentes.
É possível que o
mesmo aconteça em relação a Jesus e o cristianismo. Estando em
jogo interesses de ordem social, política e, sobretudo,
econômica, os líderes cristãos preferem deixar o mito de pé,
pois enquanto houver cristãos, sua profissão estará garantida e
os lucros continuarão sendo por eles auferidos.
O que se faz
necessário é que o povo seja esclarecido acerca dos assuntos de
crenças e religiões nos termos da verdade, da razão e da
lógica, a fim de que, se libertando dos velhos preconceitos e
tabus, possa enfim ver o mundo e as coisas em sua realidade
objetiva.
E não ignoramos qual
a realidade objetiva que predomina no cristianismo: é a
exploração dos menos aquinhoados intelectual e economicamente.
Quem mais contribui para as campanhas da Igreja são aqueles que
menos possuem, cuja mente encontra-se obstruída pelas idéias e
crenças religiosas. Sua pobreza material alia-se à pobreza
intelectual.
Uma boa dose de
conhecimentos científicos é certamente a melhor maneira de
remover os obstáculos à libertação do homem, criados pelos
lideres religiosos, em suas pregações. Entretanto, sabemos que
nem sempre é possível a aquisição de tais conhecimentos.
Muitos são os fatores que se interpõem entre o homem pobre, o
operário, o trabalhador, e a cultura. Um desses fatores, por
sinal, muito ponderável, é o econômico-financeiro. Como fazer
para ir à escola, comprar livros, etc, se tem que trabalhar duro
pela vida, e o que ganha mal dá para sobreviver?
Bem poucos são os
que conseguem reunir os conhecimentos necessários que lhe
permitam enxergar mais longe e romper as invisíveis cadeias que
os prendem aos dogmas e preconceitos ultrapassados pela razão e
pela ciência.
O mais cômodo para
aqueles deserdados será esperar a recompensa das agruras da vida
no céu, após a morte. Afinal de contas, os padres e os pastores
estão aí para isto: vender Deus e o céu a grosso e no varejo.
Tobias Barreto
escreveu estes inolvidáveis versos:
“Se
é sempre o mesmo engodo;
Se
o homem chora e continua escravo;
De
que foi que Jesus salvar-nos veio?”
Poderá alguém
responder a tal interrogação satisfatoriamente? Provavelmente
não.
É possível que,
movido pela mesma razão, Proudhon tenha escrito: “Os
que me falam em religião querem o meu dinheiro ou a minha
liberdade”. Desta forma, em poucas palavras, ficou bem
claro o sentido e o objetivo da religião: subtrair ao indivíduo
a sua liberdade de pensamento e de ação, e, com ela, o seu
dinheiro.
III
As
Falsificações
Vimos, assim, que os únicos autores que
poderiam ter escrito a respeito de Jesus Cristo, e como tal foram
apresentados pela Igreja, foram Flávio Josefo, Tácito Suetonio e
Plínio. Invocando o testamento de tais escritores, pretendeu a
Igreja provar que Jesus Cristo teve existência física, e incutir
como verdade na mente dos povos todo o romance que gira em torno
da personalidade fictícia de Jesus.
Contudo, a ciência
histórica, através de métodos modernos de pesquisa, demonstra
hoje que os autores em questão foram falsificados em seus
escritos. Estão evidenciadas súbitas mudanças de assunto para
intercalações feitas posteriormente por terceiros. Após a
prática da fraude, o regresso ao assunto originalmente abordado
pelo autor.
Tomemos,
primeiramente, Flávio Josefo como exemplo. Ele escreveu a
história dos acontecimentos judeus na época em que pretensamente
Jesus teria existido. Os falsificadores aproveitaram-se então de
seus escritos e acrescentaram: “Naquele tempo nasceu Jesus,
homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas
admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na
verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns
gregos. Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes do nosso
país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o
abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado,
reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito
os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A
sociedade cristã, que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que
usa”.
Depois deste trecho,
passa a expor um assunto bem diferente no qual refere-se a
castigos militares infligidos ao populacho de Jerusalém. Mais
adiante, fala de alguém que conseguira seus intentos junto a uma
certa dama fazendo-se passar como sendo a humanização do deus
Anubis, graças aos ardis dos sacerdotes de Ísis. As palavras a
Flávio atribuídas são as de um apaixonado cristão. Flávio
jamais escreveria tais palavras, porquanto, além de ser um judeu
convicto, era um homem culto e dotado de uma inteligência
excepcional.
O próprio Padre
Gillet reconheceu em seus escritos ter havido falsificações nos
textos de Flávio, afirmando ser inacreditável que ele seja o
autor das citações que lhe foram imputadas. Além disso, as
polêmicas de Justino, Tertuliano, Orígenes e Cipriano contra os
judeus e os pagãos demonstram que Flávio não escreveu nem uma
só palavra a respeito de Jesus. Estranhando o seu silêncio,
classificaram-no de partidário e faccioso. No entanto, um
escritor com o seu mérito escreveria livros inteiros acerca de
Jesus, e não apenas um trecho. Bastaria, para isto, que o fato
realmente tivesse acontecido. Seu silêncio, no caso, é mais
eloqüente do que as próprias palavras.
Exibindo os escritos
de Flávio, Fócio afirmava que nenhum judeu contemporâneo de
Jesus ocupara-se dele. A luta de Fócio, que viveu entre os anos
de 820 a 895, e foi patriarca de Constantinopla, teve ensejo
justamente por achar desnecessário a Igreja lançar mãos de
meios escusos para provar a existência de Jesus. Disse que
bastaria um exemplar autêntico não adulterado pela Igreja e fora
do seu alcance para por em evidência as fraudes praticadas com o
objetivo de dominar de qualquer forma. Embora crendo em Jesus
Cristo, combateu vivamente os meios sub-reptícios empregados
pelos Papas, razão porque foi destituído do patriarcado
bizantino e excomungado. De suas 280 obras, apenas restou o “Myriobiblion”,
tendo o resto sido consumido, provavelmente por ordem do Papa.
Tácito escreveu: “Nero,
sem armar grande ruído, submeteu a processos e a penas
extraordinárias aos que o vulgo chamava de cristãos, por causa
do ódio que sentiam por suas atrapalhadas. O autor fora Cristo, a
quem, no reinado de Tibério, Pôncio Pilatos supliciara. Apenas
reprimida essa perniciosa superstição, fez novamente das suas,
não só na Judéia, de onde proviera todo o mal, senão na
própria Roma, para onde de confluíram de todos os pontos os
sectários, fazendo coisas as mais audazes e vergonhosas. Pela
confissão dos presos e pelo juízo popular, viu-se tratar-se de
incendiários professando um ódio mortal ao Gênero humano”.
Conhecendo muito bem
o grego e o latim, Tácito não confundiria referências feitas
aos seguidores de Cristo com os de Crestus. As incoerências
observadas nessa intercalação demonstram não se tratar dos
cristãos de Cristo, nem a ele se referir. Lendo-se o livro em
questão, percebe-se perfeitamente o momento da interpelação.
Afirmar que fora Cristo o instigador dos arruaceiros é uma
calúnia contra o próprio Cristo. E conforme já referimos
anteriormente, os cristãos seguidores de Cristo eram muito
pacatos e não procuravam despertar atenção das autoridades para
si. Como dizer em um dado momento que eles eram retraídos e, em
seguida, envolvê-los em brigas e coisas piores? É apenas mais
uma das contradições de que está repleta a história da Igreja.
Ganeval afirma que
foram expulsos de Roma os hebreus e os egípcios, por seguirem a
mesma superstição. Deduz-se então que não se referia aos
cristãos, seguidores de Jesus Cristo. Referia-se aos Essênios,
seguidores de Crestus, vindos de Alexandria. A Igreja não
conseguiu por as mãos nos livros de Ganeval, o que contribuiu
ponderavelmente para lançar uma luz sobre a verdade. Por
intermédio de seus escritos, surgiu a possibilidade de provar-se
a quais cristãos, exatamente, referia-se Tácito.
Suetônio teria sido
mais breve em seu comentário a respeito do assunto. Escreveu que
“Roma expulsou os judeus instigados por Crestus, porque
promoviam tumultos”. É evidente, também, a falsificação
praticada em uma carta de Plínio a Trajano, quando perguntava o
que fazer aos cristãos, assunto já abordado anteriormente. O
referido texto, após competente exame grafotécnico, revelou-se
adulterado. É como se Plínio quisesse demonstrar, não apenas a
existência histórica de Jesus, mas sua divindade, simbolizando a
adoração dos cristãos. É o quanto basta para evidenciar a
fraude.
Se Jesus Cristo
realmente tivesse existido, a Igreja não teria necessidade de
falsificar os escritos desses escritores e historiadores. Haveria,
certamente, farta e autêntica documentação a seu respeito,
detalhando sua vida, suas obras, seus ensinamentos e sua morte.
Aqueles que o omitiram, se tivesse de fato existido, teriam falado
dele abundantemente. Os mínimos detalhes de sua maravilhosa vida
seriam objeto de vasta explanação. Entretanto, em documentos
históricos não se encontram referências dignas de crédito,
autênticas e aceitáveis pela história. Em tais documentos, tudo
o que fala de Jesus e sua vida é produto da má-fé, da burla, de
adulterações e intercalações determinadas pelos líderes
cristãos. Tudo foi feito de modo a ocultar a verdade. Quando a
verdade esta ausente ou oculta, a mentira prevalece. E há um
provérbio popular que diz: “A mentira tem pernas curtas”.
Significa que ela não vai muito longe, sem que não seja
apanhada. Em relação ao cristianismo, isto já aconteceu. Um
número crescente de pessoas vai, a cada dia que passa, tomando
conhecimento da verdade. E, assim, restam baldados os esforços da
Igreja, no que concerne aos ardis empregados na camuflagem da
verdade, visando alcançar escusos objetivos.
IV
O
Doloroso Silêncio Histórico
A existência de Jesus Cristo é um fato
jamais registrado pela história. Os documentos históricos que o
mencionam foram falsificados por ordem da Igreja, num esforço
para provar sua pretensa existência, apesar de possuir provas de
que Jesus é um mito. E assim agiu, movida pelo desejo de
resguardar interesses materiais. Ganeval apontou a semelhança
entre o culto de Jesus Cristo e o de Serapis. Ambos são uma
reencarnação do deus “Phalus”, que, por sua vez, era uma das
formas de representação do deus Sol.
Irineu chegou a afirmar que o deus dos
cristãos não era homem nem mulher. Papias cita trechos dos
Evangelhos, mostrando que se referiam ao Cristo egípcio.
Referindo-se ao “logos”, que seria Jesus Cristo, disse ter
sido ele apenas uma emanação de Deus, produzida à semelhança
do Sol. É bom lembrar que essas opiniões divergentes entre si
são de três teólogos do cristianismo. Essas opiniões foram
emitidas quando estava acesa a luta de desmentidos recíprocos da
Igreja contra os seus numerosos opositores, ou seja, os que
desmentiam a existência física de Jesus. Então, criaram uma
filosofia abstrata, baseando-se nos escritos de Filon.
Ganeval, baseando-se em Fócio, disse que
Eudosino, Agápio, Carino, Eulógio e outros teólogos do
cristianismo primitivo não tiveram um conceito real nem físico
de Jesus Cristo. Disse mais, que Epifânio, falando sobre as
seitas heréticas dos marcionítas, valentinianos, saturninos,
simonianos e outros, falava que o redentor dos cristãos era
Horus, o filho de Ísis, um dos três deuses da trindade egípcia,
que mais tarde viria a ser Serapis.
Ganeval afirmou ainda que os docetistas
negavam a realidade de Jesus, e, para refutar a negação, o IV
Evangelho põe em relevo a lança que fez sair água e sangue do
corpo de Jesus, com o intuito de provar sua existência física.
Segundo Jerônimo, esses docetistas teriam sido contemporâneos
dos apóstolos. Lembra ainda que o imperador Adriano, viajando em
131 para Alexandria, declara que “o deus dos cristãos era
Serapis, e que os devotos de Serapis eram os mesmos que se
chamavam os bispos de cristãos”.
Adriano, decerto, estava com a verdade.
Documentos daquela época informam que existiam os atuais
Evangelhos, assim como Tácito informa que os hebreus e os
egípcios formavam uma só superstição. Os escritos de Filon
não se referem a Jesus Cristo, conforme pretenderam fazer crer os
falsificadores, mas a Serapis. Quando havia referências aos
cristãos terapeutas, afirmavam que se falava dos cristãos de
Jesus.
Por sua vez, Clemente de Alexandria e
Orígenes escreveram negando Jesus e falando em Cristo, o qual
seria Crestus. No entender de Fócio, tudo isso não passava de
fabulação mítica, não tendo existido Jesus nem Cristo, de que
a Igreja criou o seu Jesus Cristo.
Duquis e Volney, fazendo o estudo da
mitologia comparada, mostram de onde retiraram Jesus Cristo: do
próprio mito. Filon, escrevendo a respeito dos cristãos
terapeutas, disse que o seu teor de vida era semelhante ao dos
cristãos e essênios. Abandonavam bens e família para seguir
apaixonadamente aos sacerdotes. Epifânio escreveu que os
cristãos terapeutas viviam junto do lago Mareótides, tendo os
seus Evangelhos e os seus apóstolos. É sobre esses cristãos que
Filon escreveu. Se os cristãos seguidores de Jesus Cristo já
existissem, Filon não poderia deixar de falar deles. Quando do
pretenso nascimento de Cristo, Filon contava apenas 25 anos de
idade. Os Evangelhos, tendo surgido muito tempo após a morte de
Filon e de Jesus, não poderiam ser os do cristianismo por ele
referido.
Clemente de Alexandria e Orígenes não
criam na encarnação nem na reencarnação, motivo porque não
creram na encarnação de Jesus Cristo, embora fossem padres da
Igreja. Orígenes morreu em 254.
Fócio escreveu sobre “Disputas” de
Clemente e afirmou que ele negara a doutrina do “Logos”,
dizendo que o “Verbo” jamais se encarnou, afirmação
igualmente feita por Ganeval. Analisando os quatro volumes de “Principia”,
de Orígenes, percebe-se que o “Logos” ou o “Verbo” era o
mesmo sopro de Jeová, referido por Moisés. Fócio, tendo-se
escandalizado com isso, disse que Orígenes era um blasfemo.
Apenas analisando como se referia ao Verbo,
a Crestus e ao Salvador, é que se pode excluir a possibilidade da
existência física de Jesus. Tratá-lo-iam de modo bem diferente,
se tivesse realmente existido.
V
Um
Jesus Cristo Não Histórico
A história, conforme mencionamos, não tem
registro da existência de Jesus Cristo. Os autores que temos em
apreço e que seriam seus contemporâneos omitiram-se
completamente. Os documentos históricos que o mencionam, fazem-no
esporadicamente, e bem assim revelam-se rasurados e falsificados,
motivo pelo qual de nada adiantam, neste sentido, para a
história. É óbvio, portanto, que a história não poderia
registrar um evento que não aconteceu.
Tomando conta da história, o cristianismo
deixou-a na contingência de referir o nome de Jesus Cristo como
sendo um deus antropomorfizado, mas nunca uma pessoa de carne e ossos
que tenha realmente vivido.
Ao fazê-lo, principia por um estudo
filológico e etimológico dos termos “Jesus” e “Cristo”,
e termina mostrando que os dois nomes foram reunidos em um só,
para ser dado posteriormente a um indivíduo. O termo “Jesus”
significa salvador, enquanto que “Cristo” é o ungido do
Senhor, o “oint” dos judeus, o Messias esperado doe judeus.
Nesse estudo, a história mostra que a crença messiânica havia
tomado a orla do Mediterrâneo a partir do século II antes de
nossa era. O norte da África, o sul da Europa, a Ásia Menor,
estavam todos repletos de Messias e Cristos, e de milhares de
pessoas que os seguiam e neles criam.
Ao referir-se aos pretensos Messias, o
Talmud deu esse nome até mesmo a diversos reis pagãos, como no
caso de Ciro, conforme está em Isaias 44:1, ou ao rei de Tiro,
como está em Ezequiel 28:14 e nos Salmos, quando se verifica que
os nomes de Jesus e de Cristo já vinham sendo atribuídos a
diversos líderes religiosos da Antigüidade.
As fontes pesquisadas pela história
mostraram que Jesus Cristo, ao ser estudado como fato histórico,
só pode ser encarado como sendo o “ungido do Senhor”, uma
personalidade de existência abstrata apenas, não tendo possuído
contextura física pelo que deixou de ser histórico. É apenas
uma figura simbólica, através da qual a humanidade tem sido
ludibriada de há muitos séculos.
Cumprindo seu dever de informar, a história
põe diante dos olhos do crente e do estudioso as provas de que
foi a luta dos líderes cristãos a partir do século II para que
o mito Jesus Cristo adquirisse a consistência granítica que
levou a crença religiosa dos europeus da Idade Média sob o
guante do criminoso absolutismo dos reis e dos Papas de então.
Este estudo demonstra que Jesus Cristo foi
concebido no século II para cumprir um programa messiânico
elaborado pelos profetas e pelos compiladores do Velho Testamento
e das lendas, sob o seu pretenso nome. Vê-se, então, que os
passos de Jesus pela terra aconteceram conforme o Talmud, para que
se cumprissem as profecias que o judaísmo havia inventado.
Jesus Cristo pode ser considerado o ator no
palco. Representou o drama do Gólgota e retirou-se da cena ao fim
da peça. Mateus 1:2 descreve-nos um Jesus Cristo que nasce
milagrosamente, apenas para que se cumprissem as escrituras. Em
2:5 diz que nasceu em Belém, porque foi ali que os profetas
previram que nasceria. Em 2:14 deixa-o fugir para o Egito, para
justificar estas palavras: “Meu filho será chamado do Egito”.
Em 2:23 faz José regressar a Nazaré porque Jesus deveria ser
nazareno. Em 3:3 promove o encontro de Jesus com João Batista,
porque Isaías predissera-o. Em 4:4 Jesus foi tentado pelo diabo,
porque as escrituras afirmaram que tal aconteceria e que ele
resistiria. Em 4:14 leva Jesus para Carfanaum para conferir outra
predição de Isaías. Em 4:12 Jesus diz que não se deve fazer
aos outros senão aquilo que gostaríamos que a nós fosse feito,
porque isto também estava na lei dos profetas. Em 7:17 Jesus cura
os endemoniados, conforme predissera Isaías. Em 11:10-14 Jesus
palestra com João Batista porque assim predissera Elias. Em 12:17
Jesus cura as multidões, quando pede que não propalem isso,
igualmente dando cumprimento às palavras de Isaías. Em 12:40
permanece sepultado durante três dias porque os deuses do
paganismo, os deuses solares ou redentores, também estiveram;
como Jonas, que foi engolido por uma baleia, a qual depois de
três dias jogou para fora, intacto como se nada tivesse
acontecido. E tudo isto aconteceu em um mar onde não há
possibilidade de vida para esse cetáceo, portanto, só poderia
acontecer graças aos milagres bíblicos. Em 13:14 diz que Jesus
falava por meio de parábolas, como Buda também o fez. Assim
também falavam os antigos taumaturgos, para que apenas os
sacerdotes entendessem; assim só eles seriam capazes de
interpretar para os incautos e crédulos religiosos, e, afinal,
porque Isaías assim o previa. Em 21:14 Jesus entra em Jerusalém
montado em um burreco, conforme as profecias. Em 26:54 Jesus diz
que não foi preso pelo povo quando junto dele se assentou no
templo para ensinar, porque também estava previsto. Em 27:9 Judas
trai a Jesus, vendendo-o por trinta dinheiros e recebendo à vista
o preço da traição. Em 27:15 os soldados repartem entre si as
roupas do crucificado.
Apenas o cumprimento desta profecia choca-se
frontalmente com a história. E, de acordo com ela, nessa época
não havia legionários romanos na Palestina. Lucas 23:27 diz que
Jesus mandou comprar espadas, para que assim fosse confundido com
os malfeitores comuns, porque assim estava previsto. Em seguida,
diz que Jesus, ao ensinar aos seus apóstolos, afirmava que tudo o
que lhe acontecesse, era para que estivesse de acordo com o que
escreveram Moisés e os profetas, e como estava descrito nos
salmos. Em 24:44-46 diz que Jesus afirmou “Como era necessário
que Cristo padecesse e ressuscitasse ao terceiro dia, dentre os
mortos”.
Para ficar de acordo com as previsões
testamentárias, João 19:27 diz que Jesus teve sede e pediu
água. Em 19:30, ao beber a água, disse que era vinagre e
exclamou: “Tudo se cumpriu”. Em 19:32-37 diz que não lhe
quebraram nenhum osso, apenas o feriram com a lança para
verificar se havia expirado. E isto também estava predito. Por
ai, percebe-se que tudo ali é puro simbolismo, e que Jesus foi
idealizado apenas para cumprir as escrituras. Está ai uma prova
de que a existência de Jesus nada mais é do que uma fabulação
evangélica. Do mesmo modo que inventaram as profecias, inventaram
alguém para cumpri-las. Tanto é verdade, que os judeus que ainda
hoje acreditam em profecias, não aceitaram Jesus como tendo sido
o Messias prometido pelo Talmud.
Além disso, os seus escritores esgotaram
todos os argumentos possíveis com o fim de provar que Jesus não
foi um acontecimento palestino, e que não passou de um romance
escrito pelos judeus dispersos e dos que se aproveitaram do
messianismo judeu para criar uma empresa comercial, como tem sido
o Vaticano.
O messianismo não foi uma lenda que tenha
atingido a todas as classes sociais judias. Essa lenda foi criada
pelos sacerdotes judeus visando com isso ajudar ao povo da rua a
suportar melhor as agruras da pobreza e não reagir contra as
classes privilegiadas. Essas promessas são cumpridas pelos
sacerdotes, a seu modo, a fim de que o pobre viva de esperanças e
não sinta que o rico continua metendo as mãos em seus bolsos,
impunemente. O homem do povo raramente compreende a finalidade
desse tipo de engodo.
O Talmud traz uma porção de profecias, e
ao mesmo tempo critica aos que lhes dão crédito. A crítica
representa uma evolução do pensamento das lideranças judias. Um
estudo comparado do judaísmo e do cristianismo mostra a enorme
quantidade de crendices dessas religiões forjadas pelos seus
líderes e afastadas pela evolução do conhecimento.
Em nossos dias, o conhecimento atingiu um
ponto em que a própria Igreja começou a relegar para um canto os
seus ídolos de aspecto humano. O conhecimento humano terminara
por vencer definitivamente, provando que todos os deuses e ídolos
têm os pés de barro. Nossos antepassados viram muitos ídolos
cair. Certas práticas e crenças religiosas ainda permanecem
válidas porque os sacerdotes, como bons psicólogos que são,
observam o desenvolvimento mental do povo e sabem que uns
encontram a verdade, enquanto outros, jamais conseguiram
alcançá-la.
Idealizando um Jesus Cristo adaptado às
profecias talmúdicas, criaram um personagem incoerente e
inseguro, o que nos dá a medida exata do quilate mental dos seus
criadores. Podiam ser espertos, mas nunca inteligentes ou cultos.
Não deve ter sido tarefa das mais fáceis a
de adaptar um Cristo vindo para cumprir as profecias no fanatismo
das populações ignaras. Foi um trabalho de titãs não
acorrentados à verdade, nem à sinceridade que o homem deve ao
seu semelhante. Nunca foi fácil transformar uma fantasia em
realidade. Por isso, o cristianismo teve de valer-se da espada de
Constantino e das armas de seus legionários para impor
dogmaticamente o que a razão e o conhecimento jamais aceitariam
passivamente. Nos dois primeiros séculos do cristianismo, cada
qual queria ser o primeiro e mandar mais e, se possível, ficar
sozinho. Tivemos muitos reis e Papas analfabetos, atestando o
primarismo dos judeus dispersos, como dos lideres europeus da
época do lançamento do cristianismo.
Tentando racionar a teologia do judaísmo e
do cristianismo, fizeram de Jeová um deus absurdo e de Jesus um
ser irreal, ambos incoerentes, o que se tornou a essência do
Talmud e dos Evangelhos. Através de Jesus Cristo, valorizaram as
profecias do pretenso profeta Isaías, revitalizando assim o
judaísmo e dando seriedade ao Talmud, fazendo dos Evangelhos um
amontoado de mentiras e de impossíveis humanos. Assim é que
criaram um relato inconsistente, que desmorona completamente em
face de uma análise mais profunda.
Scherer escreveu que Jesus não foi um
filósofo nem fundador de uma religião. Foi apenas Messias. O
sentido da vida de Jesus era apenas dar cumprimento às profecias
messiânicas, e tal idéia é o centro dos fatos evangélicos, a
razão de ser Jesus. Tendo vindo ao mundo tão-somente para
cumprir as profecias, deixou de ser humano e tornou-se um
fantasma, ou um símbolo do que nunca teve existência real.
A vida de Jesus e de seus apóstolos
desenrola-se apenas como uma peça teatral, na qual Jesus acumula
os papéis de deus e de homem. Um dia o público há de
convencer-se de que esteve diante de um ser bíblico, sem uma
realidade histórica.
Segundo Arthur Weigal, o único testemunho
escrito por quem teria convivido com Jesus teria sido a epístola
atribuída a Pedro. Teria surgido quando começaram as pretensas
perseguições aos cristãos, na qual ele os animava. Entretanto,
como a existência de Pedro é igualmente lendária, a epístola
em questão não merece fé, tendo sido composta por qualquer
cristão, menos pelo mitológico Pedro.
Os escritos de Tácito, dadas as
adulterações sofridas, carecem de valor histórico. Dai não se
poder admitir como verdade que Nero, entre os anos 54 e 68, tenha
realmente perseguido aos seguidores de Jesus Cristo. Tertuliano,
entretanto, afirma que Pedro foi martirizado no governo de Nero.
Contudo, vários pesquisadores, entre os
quais Holmann e Weizsacker, demonstraram que essas perseguições
somente começaram a partir do século II. Irineu, no ano 180,
achava que a epístola de Pedro fora escrita em 83, mas não por
Pedro. Nesta epístola, Pedro dizia que “Jesus sofreu por nós,
deixando-nos um exemplo”. Acrescentara ter sido testemunha
pessoal dos seus sofrimentos, após os quais subiu ao céu, de
onde voltaria em breve. No entanto, sua volta não ocorreu até
hoje, apesar de terem se passado dois mil anos. A falta de
cumprimento dessa promessa invalida todas as suas afirmações.
Disse Pedro, ainda, que Jesus mandou que se
amasse uns aos outros, pagando o mal com o bem, retribuindo a
injúria com a bênção. Recomendou a caridade, a hospitalidade e
a humildade; o dever de evitar o mal, fazer o bem e buscar a paz,
assim como a abstinência da ambição da carne, evitar o rancor,
a inveja e a maledicência; a submissão às autoridades, crer em
Deus e honrar o rei.
As epístolas de Paulo viriam em segundo
lugar, como importância histórica. Pedro teria aprendido a
doutrina cristã na convivência direta com Jesus. Suas epístolas
seriam consideradas autênticas por terem sido escritas 20 ou 30
anos após a crucificação. Pedro, assim como Paulo, afirmaram
que Jesus voltaria em breve para julgar a humanidade. Contudo,
ambos estavam enganados e enganaram aos outros. Paulo teria
conhecido pessoalmente a Pedro e a Jaques, um dos irmãos de Jesus
Cristo, assim como referia-se a outras pessoas que teriam
convivido com Jesus. A crucificação e a ressurreição teriam
sido fatos indiscutíveis para Pedro e Paulo, cujos escritos
estariam muito próximos dos acontecimentos.
Paulo, em I Coríntios 11:1, diz: “Imitam-me
como se fosse Jesus”. Teria pregado o amor, a paz, a
temperança, a caridade, a alegria, a paciência, a doçura, a
confiança e a boa vontade. A lei divina deveria ser interpretada
segundo o espírito e não conforme a letra. “Amarás ao
próximo como a ti mesmo”, seria um amor paciente, caridoso e
humilde.
As epístolas procuraram estabelecer a
historicidade de Jesus, assim como revelar muitos pontos do seu
caráter. Jesus teria vivido apenas para redimir a humanidade,
não teria pecado, sendo, sem dúvida alguma, o filho de Deus.
Papias, em 140, escreveu que Mateus havia colecionado as máximas
de Jesus, e Marcos recolhera muitas notas para o Evangelho. Assim,
os Evangelhos seriam o espelho de Jesus, contado pelos apóstolos,
espalhando entre os homens o ideal de perfeição moral e mental.
As curas, milagres e pregações de Jesus,
em pouco tempo, haviam espalhado o seu nome, galvanizando as
multidões, todos sentiam que havia surgido o Messias. Assumiu o
papel de Messias e com isso entusiasmou a multidão, pelo que
entrou em Jerusalém cercado da emoção e do respeito do povo. Ao
anoitecer abandonou a cidade, e, no dia seguinte, ao regressar,
encontra muita agitação. As autoridades haviam tomado medidas
contra ele. Dois dias antes da páscoa, tomou sua última
refeição com os companheiros e ali permaneceu a espera dos
acontecimentos, sabendo que o seu reino não era deste mundo. À
noite, foi preso, e, no dia seguinte, julgado. O povo quis que o
sacrificassem em lugar de Bar Abbas. Seria o sacrifício pascal,
rito multimilenar que iria mais uma vez acontecer. Após a morte,
sai do sepulcro, ressuscitado, e vai ao encontro dos apóstolos,
pede comida, e depois de permanecer algum tempo com eles, ascende
ao céu prometendo voltar em breve.
Foi este o retrato feito de Jesus Cristo
pelo cristianismo, e que ainda hoje milhões de pessoas adoram.
Entre nós, são bem poucos os que põem em dúvida a veracidade
desse romance contado pelos judeus da diáspora e aproveitado por
seus seguidores latinos.
No entanto, a razão e o conhecimento estão
se encarregando de destruir a pretensa veracidade desse conto.
Muitas coisas consideradas como milagres são hoje conseguidas
naturalmente através da ciência, da tecnologia moderna, da
medicina, do conhecimento científico em todas as suas
modalidades, e mesmo através da hipnose. Diante das conquistas
que o homem tem feito, é possível que ele abra os olhos para a
verdade e perceba então que Deus jamais se preocupou com sua
sorte e com o mundo. A história desmente peremptoriamente que
Deus tenha comparecido ao mundo nos momentos de festa ou de dor. O
homem foi abandonado à própria sorte e tem lutado muito para
sobreviver através dos tempos, e tem obtido sucesso porque está
sempre acumulando conhecimentos, os quais emprega em situações
futuras.
Diante de tudo o que foi exposto, só nos
resta dizer que a história, em dois mil anos, não encontrou uma
única prova ou documento que mereça crédito no que diz respeito
à vida de Jesus. Sua existência é fictícia e só encontra
agasalho no seio da mitologia. Seu nascimento, sua vida, sua
morte, sua família, seus discípulos, tudo, enfim, que lhe diz
respeito, tem analogia com as crenças, ritos e lendas dos deuses
solares, adorados sob diversos nomes e modalidades e por povos
diversos, também.
Dele, a história nada sabe.
VI
Jesus
e o Tempo
O mítico dia do nascimento de Jesus Cristo
foi oficializado por Dionísio, o Pequeno, no século VI, que
marcou no ano 1 do século I, correspondendo ao ano 753 da
fundação de Roma, com um erro de previsão calculado em seis
anos. Para chegar a essa artificiosa fixação, serviu-se de
diversos sistemas de cálculo. Calvísio e Moestrin contaram até
132 sistemas e Fabrício arredondou para 200.
Para uns, teria sido entre 6 e 10 de
janeiro, para outros, 19 ou 20 de abril, enquanto outros ainda
situavam entre 20 e 25 de março. Os cristãos orientais
determinaram a data entre 1 e 8 de janeiro, enquanto os ocidentais
escolheram a 6 de janeiro.
Em 375, São João Crisóstomo escreveu que
a data de 25 de dezembro foi introduzida pelos orientais.
Entretanto, antes do ano 354, Roma já o havia fixado para esta
mesma data, segundo o calendário de Bucer. Essas diferenças
foram o resultado da preocupação da Igreja em fazer com que o
nascimento de Jesus coincidisse e se confundisse com os dos deuses
solares, os deuses salvadores, e especialmente com o Deus
Invictus, que era Mitra. E era justamente ao mitraismo que a
religião cristã pretendia absorver.
No dia 25 de dezembro todas as cidades do
império romano estavam iluminadas e enfeitadas para festejar o
nascimento de Mitra. A preocupação de ligar o nascimento de
Jesus ao de Mitra denota o artificialismo que fundamentou o
cristianismo. Foi a divinização do deus dos cristãos às custas
da luz do Sol dos pagãos.
Foi um dos grandes trabalhos de
mistificação da Igreja a confluência dos dois nascimentos para
a mesma data. Assim, o nascimento do novo deus apagava da memória
do povo a lembrança de Mitra, no fim do inverno.
A tradição religiosa, desde milênios,
fizera com que todos os deuses redentores nascessem em 25 de
dezembro. Quanto ao lugar de nascimento de Jesus, disseram ter
sido em Belém, para combinar com as previsões messiânicas que,
fazendo de Jesus um descendente de David, teria a adesão dos
judeus incautos.
O II e o IV Evangelhos não mencionam o
assunto, enquanto o I e o III aludem ao caso, mas se contradizem.
Uns dizem que os pais de Jesus moravam em Belém, enquanto outros
afirmam que eles ali estavam de passagem. Essa insegurança
deve-se ao fato de pretenderem ligar a vida de Jesus à de David,
conforme as profecias. Todavia, isto confundia as tendências
históricas ligadas ao nascimento dos deuses solares. A
preocupação apologética, contudo, invalidou a pretensão
histórica.
De tudo isto resultou que a história pode
hoje provar que tudo aquilo que se refere a Jesus é puro
convencionalismo, e sua existência é apenas ideal e não real.
De modo que a morte dos inocentes nada mais é do que a
repetição da matança das criancinhas egípcias, contada no
Êxodo. A estrela só pôde ser inventada porque naquele tempo o
homem ainda não sabia o que era uma estrela; tanto assim que a
Bíblia afirma que Josué fez parar o sol com um aceno de sua mão
apenas. Assim, a estrela que guiou os magos é coisa realmente
absurda. Antes de tudo, ninguém soube realmente de onde vieram
esses reis e onde eram os seus países.
Outros fenômenos relatados como terremotos,
trevas e trovões, assinalados pelo Bíblia, não o são pela
história dos judeus nem dos romanos. Só os interessados no mito
puderam ver tais acontecimentos. Os escritores que relataram fatos
ocorridos na Palestina e no Império Romano não transmitiram
estes fatos que teriam ocorrido na morte de Jesus à posteridade.
Muita coisa pode ter acontecido naqueles tempos, menos as que
estão nos Evangelhos.
Pilatos, por exemplo, morreu ignorando a
existência de Jesus. Os legionários romanos jamais receberam
ordens para prendê-lo. Nenhum movimento social, político ou
religioso contrário às normas da ocupação surgiu na Judéia,
para justificar a condenação de seu líder por Pilatos.
Entretanto, Jesus teria sido julgado e
condenado pelos sacerdotes judeus, pois Pilatos deixara o caso
praticamente em suas mãos e do povo, lavando as suas próprias.
Nem Pilatos, nem Caiaz, nem Hannã deixaram qualquer referência
acerca desse processo. Nenhum deles poderia dizer qual a
aparência física de Jesus. Tertuliano, baseando-se em Isaías,
disse que ele era feio, ao passo que Agostinho afirmou que ele era
bonito. Uns afirmaram que era imberbe, outros que era barbado. Sua
cabeleira espessa e barba fechada resultaram de uma convenção
realizada no século XII. O Santo Sudário retrata um Jesus
Barbudo.
Nada do que se refere a Jesus pode ser
considerado ponto pacífico. Tudo é discrepante e contraditório.
Ora, se aqueles que tinham e os que ainda têm interesse em
defender a veracidade da existência de Jesus não conseguiram
chegar a um acordo no que lhe diz respeito, isso não é bom
sinal.
Moy escreveu: “Desde que se queira tocar
em qualquer coisa real na vida de Jesus, esbarra-se logo na
contradição e incoerência”. Por isso, até o aspecto físico
de Jesus tornou-se discutível, o que ajuda a provar que ele nunca
existiu. De acordo com a história, não se pode aceitar o que
está escrito nos evangelhos coma prova de sua existência.
Também a Igreja não dispõe de argumentos válidos, nesse
sentido. A arqueologia, por outro lado, nada encontrou até aqui
capaz de elucidar a questão.
De tudo isto depreendemos que a existência
física de Jesus jamais poderá ser provada de modo irrefutável,
e, por conseguinte, é muito difícil ser acatada por homens
cultos e amantes da verdade. O romance, as lendas, os contos, a
ficção, interessam como cultura, como expressão do pensamento
de um povo, e desse modo são perfeitamente aceitos. Entretanto, a
apresentação de tais modalidades de cultura como fatos reais,
consumados e verdadeiros e como tal serem impostos ao povo, é
condenável.
A atitude do cristianismo tem sido, através
dos tempos, justamente a que nós acabamos de condenar: a
imposição das lendas, do romance e da novela como realidade
palpável, como fato verdadeiro e incontestável.
Em sua “Vida de Jesus”, Strauss diz: “Poucas
coisas são certas, nas quais a ortodoxia se apóia de
preferência – as milagrosas e as sobrehumanas –, as quais
jamais aconteceram. A pretensão de que a salvação humana
dependa da fé em coisas das quais uma parte é certamente
fictícia, outra sendo incerta, é um absurdo, que em nossos dias
nem sequer devemos nos preocupar, refutando-o”.
Ernest Havet, comparando Jesus com
Sócrates, diz que Sócrates é um personagem real, enquanto Jesus
é apenas ideal. Homens como Platão e Xenófanes, os quais
conviveram com Sócrates, deixaram o seu testemunho a respeito do
mesmo. Em seus escritos relatam tudo sobre Sócrates: a vida, o
pensamento, os ensinamentos e a morte. E nada do que lhe diz
respeito foi adulterado, e, portanto, é autêntico, verdadeiro e
indiscutível.
Quanto a Jesus, não teve existência real,
e aqueles aos quais se atribui escritos e referências em
relação a ele, uns foram adulterados em seus escritos, outros
não existiram. Pílatos, que teria autorizado seu sacrifício,
omite o fato quando relata os principais acontecimentos de seu
governo. Por acaso mandaria matar um deus, e não saberia? Assim,
quem descreveu Jesus, apenas imaginou o que ele teria sido, não
foi sua testemunha.
Renan disse em sua “Vida de Jesus”: “Nossa
admiração por Jesus não desapareceria nem mesmo quando a
ciência nada pudesse decidir de certo, e chegasse forçosamente
às negações”. Termina dizendo que o divino encontrado pelos
cristãos em Jesus é o mesmo que a beleza de Beatriz, que apenas
resultou do pensamento de Dante ou de seu gênio literário. Da
mesma forma, as belezas de Cristina residem nos sonhos religiosos
dos hindus. As maravilhas de Jesus e a beleza de Maria são
produtos do gênio inventivo da liderança oradora dos mitos Jesus
e Maria.
Se de ambos apenas se diz o bem, há sinal
que eles não tiveram existência real. Jesus Cristo é uma
criação do homem, o qual esteve em cena apenas para realizar as
profecias dos primários profetas judeus. Esta é também a
opinião de Didon, exposta em seu livro “Vida de Jesus”. Diz
ele que é suspeita a sonegação de quase trinta anos da vida de
Jesus à história evangélica.
“Nós apenas sabemos um nada da vida de
Jesus”, escreveu Miron. Os redatores dos Evangelhos e os
primeiros autores eclesiásticos, recolhendo as tradições
correntes na comunidade cristã, podem ter adquirido alguns
fragmentos da verdade; mas como assegurar que, entre tantos
elementos mitológicos e legendários, haja algo de verdade?
Assim, a vida de Jesus em si é impossível.
Acontece com Cristo o mesmo que acontece com
todos os entes legendários: quanto mais os buscamos, menos os
encontramos. A tentativa feita até aqui de colar na história, de
arrebatar às trevas da teologia, um personagem que até a idade
de trinta anos é absolutamente desconhecido, e que depois da
referida idade aparece fazendo impossíveis humanos – os
milagres – é absurda e ridícula.
Labanca, em “Jesus Cristo”, impugna a
possibilidade de uma biografia científica de Jesus, baseando-se
na inautenticidade dos Evangelhos, uma vez que os mesmos não
tiveram finalidade histórica, mas tão-somente religiosa e
propagandística. Jesus não está nos Evangelhos por causa de sua
esquisita divindade, mas porque isso convém aos seus lançadores
e aos que ainda hoje vivem do seu nome, como rendoso meio de vida.
VII
Jesus
Cristo nos Evangelhos
Assim como a história não tomou
conhecimento da existência de Jesus, os Evangelhos igualmente
desconhecem-no como homem, introduzindo-o apenas como um deus.
Maurice Vernés mostrou com rara mestria que o Velho Testamento
não passa de um livro profético de origem apenas sacerdotal,
fazendo ver que tudo que ai está contido não é histórico,
sendo apenas simbólico e teológico. O mesmo acontece com o Novo
Testamento e os Evangelhos. Tudo na Bíblia é duvidoso, incerto e
sobrenatural.
Tratando dos Evangelhos, mostra que sua
origem foi mantida anônima, talvez de propósito, não se podendo
saber realmente quem os escreveu. Por isso, eles começam com a
palavra “segundo”; Evangelho segundo Mateus; segundo Marcos.
Daí se deduz que não foram eles os autores desses Evangelhos,
foram, no máximo, os divulgadores.
Igualmente deixaram em dúvida a época em
que foram escritos. A referência mais antiga aos Evangelhos é a
de Papias, bispo de Yerápoles, o qual foi martirizado por Marco
Aurélio entre 161 e 180. Seu livro faz parte da biblioteca do
Vaticano. Irineu e Eusébio foram os primeiros a atribuir a Marcos
e a Mateus a autoria dos Evangelhos, mas ambos permanecem
desconhecidos da história, como o próprio Jesus Cristo.
Destarte, pouco ou nenhum valor têm os Evangelhos como testemunha
dos acontecimentos. Se só foram compostos no século III ou IV,
ninguém pode garantir se os originais teriam realmente existido.
Os primitivos cristãos quase não
escreveram, e os raros escritos desapareceram. Por outro lado, no
Concílio de Nicéia foram destruídos todos os Evangelhos. Esse
Concílio foi convocado por Constantino, que era pagão. Daí,
devem ter sido compostos outros Evangelhos para serem aprovados
por ele ou pelo Concílio. Com isto, perderam sua autenticidade,
deixando de ser impostos pela fé para serem-no pela espada.
Celso, no século II, combateu o
cristianismo argumentando somente com as incoerências dos
Evangelhos. Irineu diz que foram escolhidos os quatro Evangelhos,
não porque fossem os melhores ou verdadeiros, mas apenas porque
esses provieram de fontes defendidas por forças políticas muito
poderosas da época. Os bispos que os apoiaram tinham muito poder
político. Informam ainda que antes do Concílio de Nicéia os
bispos serviam-se indiferentemente de todos os Evangelhos então
existentes, os quais alcançaram o número de 315. Até então
eles se equivaliam para os arranjos da Igreja. Mesmo assim, os
quatro Evangelhos adotados conservaram muitas das lendas contidas
nos demais que foram recusados. De qualquer forma, era e continuam
sendo todos anônimos, inseguros e inautênticos. Os adotados
foram sorteados, e não escolhidos de acordo com fatores
valorativos. Mesmo estes adotados desde o Concílio de Nicéia
sofreram a ação dos falsificadores que neles introduziram o que
mais convinha à época, ou apenas a sua opinião pessoal.
Esta é a história dos Evangelhos que,
através dos tempos, vêm sofrendo a ação das conveniências
políticas e econômicas. Embora a Igreja houvesse se tornado a
senhora da Europa, nem por isso preocupou-se em tornar os
Evangelhos menos incoerentes. Sentiu-se tão firme que julgou que
sua firmeza seria eterna.
Os argumentos mais poderosos contra a
autenticidade dos Evangelhos residem em suas contradições,
incoerências, discordâncias e erros quanto a datas e lugares, e
na imoralidade de pretender dar cunho de verdade a velhos e pueris
arranjados dos profetas judeus. Essa puerilidade avoluma-se à
medida que a crítica verifica o esforço evangélico em tornar
realidade os sonhos infantis de uma população ignorante. Para
justificar sua ignorância, se dizem inspirados pelo Espírito
Santo, o qual também é uma ficção religiosa, resultante da
velha lenda judia segundo a qual o mundo era dominado por dois
espíritos opositores entre si: o espírito do bem e o do mal.
Adquiriram essa crença no convívio com os persas, os egípcios e
os hindus.
Os egípcios tiveram também os seus
sacerdotes, os quais escreveram os livros religiosos como o “Livro
dos Mortos”, sob a inspiração do deus Anubis. Hamurabi impôs
suas leis como tendo sido oriundas do deus Schamash. Moisés,
descendo do Monte Sinai, trouxe as tábuas da lei como tendo sido
ditadas a ele por Jeová. Maomé, igualmente, foi ouvir do anjo
Gabriel, em um morro perto de Meca, boa parte do Alcorão. Allah
teria mandado suas ordens por Gabriel.
O conhecimento mostra que as religiões,
para se firmarem, têm-se valido muito mais da força física do
que da fé. Quanto à verdade, esta não existe em suas
proposições básicas. De modo que, Anubis, Schamash, Allah e
Jeová nada mais são do que o Espírito Santo sob outros nomes.
Stefanoni demonstrou que todos esses
escritos não representam o Espírito Santo, mas o espírito
dominante em cada época ou lugar. Assim surgiram os Evangelhos,
os quais, como Jesus Cristo, foram inventados para atender a
certos fins materiais, nem sempre confessáveis.
“Não creria nos Evangelhos, se a isso
não me visse obrigado pela autoridade da Igreja”. São palavras
de Sto. Agostinho. Com sua cultura e inteligência, poderia hoje
estar no rol dos que não crêem.
VIII
Jesus
Cristo É um Milagre
No que diz respeito a Jesus Cristo, a
teologia toma em consideração, sobretudo, o aspecto sobrenatural
e os seus milagres. João Evangelista foi trazido para a cena a
fim de criar o Logos, o Jesus metafísico, destruindo, assim, o
Jesus-Homem. As contradições surgidas em torno de um Jesus
saído da mente de pessoas primárias e incultas tornaram-no muito
vulnerável à crítica dos mais bem dotados em conhecimento.
Então vem João e substitui o humano pelo divino, por ser o mais
seguro. O mesmo iria fazer a Igreja no século XV, quando, para
abafar, grita contra os que haviam queimado miseravelmente uma
heroína nacional dos franceses, tiraram o uniforme do corpo
carbonizado de Joana D'Aro e vestiram-lhe a túnica dos santos. O
mesmo aconteceu com Jesus: teve de deixar queimar a pele humana
que lhe haviam dado, para revestir-se com a pele divina.
A Igreja, na impossibilidade de provar a
existência de Jesus-Homem, inventou o Jesus-Deus. Assim atende
melhor à ignorância pública e fecha a boca dos
incrédulos. Do que relatamos, conclui-se que, no caso de
Joana D'Arc, a igreja obteve os resultados esperados. Contudo,
continua com as mesmas dificuldades para provar que Jesus Cristo,
como homem ou como deus, tenha vivido fisicamente. E não é só.
Ela não tem conseguido provar nada do que tem ensinado e imposto
como verdade. Falta-lhe argumentos sérios e convincentes para
confrontar com o conhecimento científico e com a história sem
que sejam refutados.
A Igreja tudo fez para tornar Jesus Cristo a
base e a razão de ser do cristianismo. E isto satisfez plenamente
a seus interesses materiais nestes dois milênios de vida. Da
mesma forma, os portugueses, os espanhóis e os ingleses, de
Bíblia na mão e cruz no peito, foram à longínqua África para
arrastar o negro como escravo, para garantir a infra-estrutura
econômica do continente americano. Jamais se preocuparam em saber
se o pobre coitado queria separar-se de seus entes queridos, nem o
que estes iriam sofrer com a separação.
A Igreja está realmente atravessando uma crise. Acontece que os
processos tecnológicos e científicos descortinam para o homem
novos horizontes, e então ele percebe que foi iludido
miseravelmente. Sua fé, sua crença e seu deus morrem porque não
têm mais razão de ser.
Jesus Cristo foi inicialmente um deus
tribal, que teria vindo ao mundo por causa das desgraças dos
judeus. Eles sonhavam ser donos do mundo, mas, mesmo assim, foram
expulsos até mesmo de sua própria terra. Contudo, o cristianismo
ganhou a Europa, com a adesão dos reis e imperadores.
Renan, não conseguindo encontrar o
Jesus-Divino, tentou ressuscitar o Jesus-Homem. Mas o que
conseguiu foi apenas descrever uma esquisita tragédia humana,
cujo epílogo ocorreu no céu. Jesus teria sido um altruísta
mandado à terra para que se tornasse uma chave capaz de abrir o
céu. Teria sido o homem ideal com que o religioso sonha desde
seus primórdios. Existindo o homem ideal, cuja idealidade ficasse
comprovada, o histórico seria dispensável. Mas, ao tentar
evidenciar um desses dois aspectos, Renan perdeu ambos. Mostrou
então que, para provar o lado divino de Jesus, compuseram os
Evangelhos. Seu objetivo: relatar exclusivamente a vida de um
homem milagroso e não de um homem natural.
Elaborando os Evangelhos,
cometeram tantos erros e contradições, que acabaram por
destruir, de vez, a Jesus. A exegese da vida de Jesus, baseada no
conhecimento e na lógica, separando-se o ideal do real, eles
destroem-se mutuamente. Quem descreve o Jesus real, não poderá
tocar o ideal, e vice-versa, porque um desmente o outro.
Em suma, os Evangelhos não satisfazem aos
estudiosos da verdade livre de preconceitos, destruindo o material
e o ideal postos na personalidade mítica de Jesus. A fabulação
tanto recobre o humano como o divino.
Verificamos, então, estarmos em presença
de mais um deus redentor ou solar. Jesus, através dos Evangelhos,
pode ser Brama, Buda, Krishna, Mitra, Horus, Júpiter, Serapis,
Apolo ou Zeus. Apenas deram-lhe novas roupas. O Cristo descrito
por João Evangelista aproxima-se mais desses deuses redentores do
que o dos outros evangelistas. É um novo deus oriental, lutando
para prevalecer no ocidente como antes tinha lutado para impor-se
no oriente. É um novo subproduto do dogmatismo religioso dos
orientais, em sua irracional e absurda metafísica. Por isso,
criaram um Jesus divino, não por causa dos seus pretensos
milagres, mas por ser o Logos, o Verbo feito carne. Essa essência
divina é que possibilitou os milagres. É um deus
antropomorfizado, feito conforme o multimilenar figurino
idealizado pelo clero oriental. Jesus não fez milagres, ele é o
próprio milagre. Nasceu de um milagre, viveu de milagres e foi
para o céu milagrosamente, de corpo e alma, realizando assim mais
uma das velhas pretensões dos criadores de religiões: a
imortalidade da alma humana.
Sendo Jesus essencialmente o milagre, não
poderá ser histórico, visto não ter sido um homem normal,
comum, passando pela vida sem se prender às necessidades básicas
da vida humana. Jesus foi idealizado exclusivamente para dar
cumprimento às profecias do judaísmo, é o que verificamos
através dos Evangelhos. Tudo quanto ele fez já estava predito,
muito antes do seu nascimento.
Jesus surgiu no cenário do mundo, não como
autor do seu romance, mas tão-somente como ator para representar
a peça escrita, não se sabe bem onde, em Roma ou, talvez,
Alexandria. O judaísmo forneceu o enredo, o Vaticano ficou com a
bilheteria. E, para garantir o êxito total da peça, a Igreja
estabeleceu um rigoroso policiamento da platéia, através da
confissão auricular. Nem o marido escapava à delação da esposa
ou do próprio filho. O pensamento livre foi transformado em crime
de morte. Os direitos da pessoa humana, calcados aos pés. Nunca a
mentira foi imposta de modo tão selvagem como aconteceu durante
séculos com as mentiras elaboradas pelo cristianismo. À menor
suspeita, a polícia tonsurada invadia o recinto e arrastava o
petulante para um escuro e nauseabundo calabouço onde as mais
infames torturas eram infligidas ao acusado. Depois, arrastavam-no
à praça pública para ser queimado vivo, o que, decerto, causava
muito prazer ao populacho cristão.
Desse modo, a Igreja tornou-se um verdugo
desumano, exercendo o seu poder de modo impiedoso e implacável,
ao mesmo tempo em que escrevia uma das mais terríveis páginas da
história da humanidade.
Durante muito tempo o sentimento de
humanidade esteve ausente da Europa, e a mentira triunfava sobre a
verdade. Milhares de infelizes foram sacrificados porque ousaram
dizer a verdade. O poder público apoiava a farsa religiosa, e era
praticamente controlado pela Igreja. Aquele que ousasse apontar as
inverdades, as incoerências e o irracionalismo básicos do
catolicismo, seria eliminado. Tudo foi feito para evitar que o
cristianismo fracassasse, devido à fragilidade de seus
fundamentos. O que a Igreja jura de mãos postas ser a verdade, é
desmentido pelo conhecimento, pela ciência e pela razão.
IX
Jesus
Cristo, um Mito Bíblico
Folheando as páginas da história humana, e
não encontrando aí qualquer referência à passagem de Jesus
pela terra, nós, estudiosos do assunto, convencer-nos-emos de que
ele nada mais é do que um mito bíblico. Pesquisando os
Evangelhos na esperança de encontrar algo de positivo,
deparamo-nos mais uma vez com o simbolismo e a mitologia. A
história que o envolve desde o nascimento até a morte é a mesma
do surgimento de inúmeros deuses solares ou redentores.
É de se notar o cuidado que tiveram
os compiladores dos Evangelhos para não permitir que Jesus
praticasse senão o que estava estabelecido pelas profecias do
judaísmo. Assim, a vida de Jesus nada mais é do que as profecias
postas em prática. O cristianismo e os Evangelhos são um modo de
reavivamento da chama do judaísmo, ante a destruição do templo
de Jerusalém. É uma transformação do judaísmo, de modo a
existir dentro dos muros de Roma, de onde, posteriormente,
ultrapassou os limites, alcançando boa parte do mundo.
O sofrimento que o judaísmo infligiu ao
povo pobre deveria ser o suficiente para que se acabasse
definitivamente. Acreditamos que a ambição de Constantino é que
deu lugar ao alastramento do cristianismo, ou, melhor dizendo, do
judaísmo sob novas roupagens e novo enredo. Não fosse isso, a
falta de cumprimento das pretensas promessas de Abraão, de
Moisés e do próprio Jesus Cristo já teria feito com que o
judaísmo e o cristianismo fossem varridos da memória do homem.
De há muito o homem estaria convencido da falsidade que é a base
da religião.
Idealizaram o cristianismo que, baseado no
primarismo da maioria, deu novo alento ao judaísmo, criando
assim, o capitalismo e a espoliação internacional. O liberalismo
que surgiu graças ao monumental trabalho dos enciclopedistas, é
que possibilitou ao homem uma nova perspectiva de vida. A partir
do enciclopedismo, os judeus e o judaísmo deixaram de ser
perseguidos por algum tempo, e com isto, quase perdeu sua razão
de ser.
Ao surgir Hitler e seu irracional nazismo,
encontrou quase a totalidade dos judeus alemães integrada de
corpo e alma na pátria alemã. O Führer deu então um novo
alento ao judaísmo, ao persegui-lo de modo desumano. Graças à
perseguição de que foram vítimas os judeus de toda a Europa
durante a guerra de 1940, surgiu a justificativa internacional
para que se criasse o Estado de Israel. Talvez o Estado de Israel,
revivendo sua velha megalomania racial, invalide em sangue a
tendência natural para a socialização do mundo e
universalização do conhecimento. A socialização do mundo
acabaria com a irracional e absurda idéia de ser o judeu um
bi-pátrida. Nasça onde nascer, não se integra no meio em que
nasce e vive. Daí a perseguição.
Os judeus ricos de todo o mundo carreiam
para Israel todo o seu dinheiro e, com ele, a tecnologia e o
conhecimento alugados. Graças a isto, poderá embasar ali os seus
mísseis teleguiados, tudo quanto houver de mais avançado na
química, física e eletrônica. Assim, terão meios de garantir a
manutenção da sócio-economia estruturada no capitalismo. Esta
é uma situação realmente grave, a qual poderá tornar-se
dramática no porvir. O poder econômico concentrado em poucas
mãos é uma ameaça contra o homem e sua liberdade.
Apesar de o cristianismo liderar o movimento
que faz do homem e do seu destino o centro das preocupações das
altas lideranças sociais, a grande maioria dos homens está
marginalizada, porque o poder econômico do mundo acumula-se em
poucas mãos. E, se permanecemos crendo em tudo quanto criaram os
judeus de dois milênios atrás, isso é sinal de que não
evoluímos o bastante para justificar o decurso de tanto tempo. Se
o progresso científico e a tecnologia avançada não conseguirem
libertar-nos dos mitos, estará patente mais uma vez o estado
pueril em que ainda se encontra o desenvolvimento mental do homem.
O homem não será de todo livre enquanto permanecer preso às
convenções religiosas, as quais possuem como único fundamento o
mito e a lenda.
Se assim falamos, não é que estejamos
sendo movidos por um anti-semitismo ou um anticlericalismo
doentio; de modo algum isto é verdadeiro. O que nos motiva tomar
em pauta o assunto é o desejo de ver um crescente número de
pessoas partilhar conosco do conhecimento da verdade.
Temos dito repetidas vezes que tudo aquilo
em que se fundamenta o cristianismo é apenas uma compilação de
velhas lendas dos deuses adorados por diversos povos. Strauss diz
que saiu do Velho Testamento a pretensão de que Jesus
encarnar-se-ia em Maria, através do Espírito Santo. Em números,
24:17 estava previsto que uma estrela guiaria os reis magos.
Cantu lembra que, juntando-se os livros do
Velho Testamento com os do Novo, teremos 72 livros, o mesmo
número de anciãos teria Moisés escolhido para subir com ele ao
Monte Sinai. O Velho Testamento previa que o povo seguiria a
Jesus, mesmo sem conhecê-lo. Seriam os peixes retirados da água
pelos apóstolos, e os mesmos da pescaria de São Jerônimo.
Moisés teria feito da pedra o símbolo da força de Jeová, por
isto, Jesus devia dar a Pedro as chaves do céu.
Oséias 11:1 e Jeremias 31:15-16-4-10-28
profetizam que o Messias seria chamado por Jeová, do Egito,
ligado ao pranto de Raquel pelo assassinato dos filhos. Então
arranjaram a terrível matança dos inocentes, a qual consta
apenas em dois evangelhos, sendo silenciado o assunto pelos outros
dois e pelos relatos enviados a Roma.
Strauss lembra também que a discussão de
Jesus com doutores do templo, assim como a passagem de Ana e
Semeão, bem como a circuncisão, estava tudo previsto no Velho
Testamento. Diz ainda que teria ido para Nazaré após o regresso
do Egito apenas para que os Evangelhos pudessem atribuir-lhe a
alcunha de nazareno. Entretanto, Nazaré não existia, pelo menos
naquela época; era uma cidade fantasma, só passando a existir
nas páginas dos Evangelhos. Assim, Jesus foi nazareno, não por
ter nascido em Nazaré, visto que não poderia nascer em dois
lugares, como também não poderia nascer em uma cidade que não
existia. Ele foi nazareno por ter sido um comunista essênio. A
anunciação e o nascimento de João Batista foram copiados do
Talmud.
As tentações de Jesus pelo demônio, no
deserto, segundo Emilio Bossi, foram copiadas das Escrituras. Os
quarenta dias passados no deserto são oriundos do cabalismo de
Roma e da crença dos babilônios, os quais atribuíam a esse
número força cabalística. Por isso, tal número repete-se
várias vezes no decorrer das dissertações bíblicas: o dilúvio
descrito na Bíblia durou quarenta dias; Moisés esteve quarenta
anos na corte do Faraó; passou quarenta anos no deserto, e os
ninivitas jejuaram quarenta dias.
Ezequiel teria sido conduzido por um
espírito de um lugar para outro, através do espaço. Abraão
teria sido tentado pelo demônio; os mesmos episódios passaram ao
Novo Testamento, tendo Jesus como protagonista. Perguntamos nós:
por que tais coisas não mais se repetem? A resposta só pode ser
esta: elas jamais aconteceram. Tudo isto não passa de lendas ou
sonhos, os quais foram impostos como fatos reais.
O Talmud diz: “Então se abrirão os olhos
aos cegos e os ouvidos aos surdos”. Jesus teria de dizer: “Então
o coxo pulará como o cervo e a língua dos mudos se soltará”.
Em Lucas 4:27 Jesus cura Naamã,
reproduzindo uma cura efetuada por Eliseu, de um outro leproso.
Elias e Eliseu ressuscitaram mortos, por seu lado, Jesus
ressuscitaria a Lázaro. Os discípulos de Jesus, não sabendo
como curar os endemoniados, recorrem ao Mestre. Passagem
semelhante está em Eliseu, cujo servo teria recorrido a ele para
curar o filho da sunamita. A multiplicação dos pães e dos
peixes é a repetição de Moisés no deserto, fazendo cair maná
e cordonizes. Moisés transformou as águas do rio em sangue e
Jesus transforma a água em vinho.
Em
Jeremias 7:11 e Isaías 56:7 está escrito que o templo não deve
se converter em um covil de ladrões, o que leva os evangelistas a
dizer que Jesus expulsou os mercadores do templo.
A transfiguração de Jesus é a mesma coisa
que aconteceu a Moisés, ao subir ao Monte Sinai, quando encontrou
com Jeová. Aliás, Moisés havia prometido que viria um profeta
semelhante a ele. A traição de Judas repete o mesmo
acontecimento em relação a Crestus.
A prisão de Jesus foi descrita de modo
igual no Talmud. A fuga dos apóstolos estava prevista por
Isaías. Jesus foi crucificado na Páscoa, representando o
cordeiro pascal.
Essas comparações patenteiam a existência
do cristianismo muito antes de Filon. Donde se deduz que Jesus foi
inventado de acordo com as Escrituras, sem esquecer de anexar as
idéias de Filon ao relato de sua pretensa vida. Fócio demonstrou
que os Evangelhos foram copiados de Filon. São Clemente e
Orígenes, embora fossem padres da Igreja, orientaram-se por Filon
e não pelo bispo de Roma.
Estas citações seriam suficientes para se
provar que Jesus jamais existiu. É apenas um produto da mente
clerical, a qual o compôs baseada em mitos e lendas.
X
As
Contradições sobre Jesus Cristo
Como tudo o mais que se refere à
existência de Jesus na terra, também a sua ascendência é
objeto de controvérsias. Segundo Mateus e Lucas, Jesus descende
ao mesmo tempo de David e do Espírito Santo. Entretanto, como
filho do Espírito Santo, não poderá descender de José,
conseqüentemente deixa de ser descendente de David e o Messias
esperado pelos judeus. Assim, Jesus ficará sendo apenas Filho de
Deus, ou Deus, visto ser uma das três pessoas da trindade divina.
Em ambos os evangelhos acima citados há
referências quanto a data de nascimento de Jesus, mas tais
referências são contraditórias o Jesus descrito por Mateus
teria onze anos quando nasceu o de Lucas. Mateus diz que José e
Maria fugiram apressadamente de Belém, sem passar por Jerusalém,
indo direto para o Egito, após a adoração dos Reis Magos.
Herodes iria mandar matar as criancinhas. Todavia, Lucas diz que o
casal estivera em Jerusalém e acrescenta a narração da cena de
que participaram Ana e Semeão. De modo que um evangelista
desmente o outro. Lucas não alude à matança das criancinhas,
nem à fuga para o Egito.
Por outro lado, Marcos e João não se
reportam à infância de Jesus, passando a narrar os
acontecimentos de sua vida a partir do seu batismo por João
Batista.
Mateus que conta o regresso de Jesus, vindo
do Egito e indo para Nazaré, deixa-o no esquecimento, voltando a
ocupar-se dele somente depois dos seus trinta anos, quando ele
procura João Batista. Diz ainda que João já o conhecia e, por
isto, não o queria batizar, por ser um espírito superior ao seu.
Lucas narra a discussão de Jesus com os
doutores da lei, aos doze anos de idade. Sendo perguntado pela
mãe sobre o que estava ali fazendo, teria respondido que se
ocupava com os assuntos do pai.
Emilio Bossi, referindo-se a esta passagem,
estranha a atividade da mãe. Se o filho nascera milagrosamente, e
ela não o ignora, só poderia esperar dele uma seqüência de
atos milagrosos. Mesmo a sua presença no templo, entre os
doutores, não deveria causar preocupação à sua mãe, visto
saber ela que o filho não era uma criança qualquer, e sim um
Deus.
Lucas diz que os samaritanos não deram boa
acolhida a Jesus, o que muito irritara a João. Contudo, João, o
Evangelista, diz que os samaritanos deram-lhe ótima acolhida e,
inclusive, chamaram-no de salvador do mundo.
Os evangelistas divergem também quanto ao
relato da instituição da eucaristia. Três deles afirmam que
Jesus instituiu-a no dia da Páscoa, enquanto João afirma que foi
antes. Enquanto os três descrevem como aconteceu, João silencia.
Na última noite Jesus estava muito triste,
como, aliás, permaneceria até a morte. Pondo o rosto em terra,
orou durante muito tempo. Segundo os evangelistas, ele estava de
tal modo triste e conturbado que teria suado sangue, coisa,
aliás, muito estranha, nunca verificada cientificamente.
Enquanto isto, seus companheiros dormiam
despreocupadamente, não se incomodando com os sofrimentos do
Mestre. Entretanto João não fala sobre esse estado de alma do
Mestre. Pelo contrário, diz que Jesus passara a noite
conversando, quando se mostrava entusiasta de sua causa e
completamente tranqüilo. Lucas, Mateus e Marcos afirmam que o
beijo de Judas denunciara-o aos que vieram prendê-lo. Todavia,
João diz que foi o próprio Jesus quem se dirigiu aos soldados
dizendo-lhes tranqüilamente: “Sou eu”.
Lucas é o único que fala no episódio da
ida de Jesus de Pilatos para Herodes Antipas. Os outros caem em
contradição quanto à hora do julgamento pelo Conselho dos
Sacerdotes em presença do povo. João não fala a respeito do
depoimento de Cireneu, nem na beberagem que teriam dado a Jesus.
Omite-se ainda quanto à discussão dos dois ladrões,
crucificados com Jesus, e quanto à inscrição posta sobre a
cruz.
De forma que seu relato é bastante
diferente daquilo que os outros contaram. E as divergências
continuam ainda no que concerne ao quebramento das pernas, ao
embalsamamento, à natureza do sepulcro e ao tempo exato em que
ele esteve enterrado. Quanto ao embalsamamento, por exemplo, há
muita coisa que não foi dita. Teriam retirado seu cérebro e
intestinos como se procede normalmente nesses casos? Se a resposta
for positiva, como explicar o fato de Jesus, após a
ressurreição, pedir comida? Como se vê, as verdades bíblicas
são além de controvertidas, incompreensíveis.
Lucas diz que Jesus referiu-se aos que
sofrem de fome sede, enquanto Mateus diz que ele se referia aos
que têm fome e sede de justiça, aos pobres de espírito. Uns
afirmam que Jesus tratara os publicanos com desprezo e ódio,
outros dizem que ele se mostrou amigável em relação a eles.
Para uns, Jesus teria dito que publicassem as boas obras, para
outros, que nada dissessem a respeito. Uma hora Jesus aconselha o
uso da força física e da resistência, mandando até que
comprassem espada; noutra, ameaça os que pretendem usar a força.
Marcos, Mateus e Lucas dizem que Jesus
recomendara o sacrifício. Entretanto, não tomou parte em nenhum
deles.
Mateus diz que Jesus afirmou não ter vindo
para abolir a lei nem os profetas, enquanto Lucas diz que ele
afirmara que isso já estava no passado, já tivera o seu tempo.
Os três afirmam ainda que Jesus apenas pregara na Galiléia,
tendo ido raramente a Jerusalém, onde era praticamente
desconhecido. Todavia, João diz que ele ia constantemente a
Jerusalém, onde realizara os principais atos de sua vida. As
coisas ficam de modo que não se sabe quem disse a verdade, ou,
melhor dizendo, não sabemos quem mais mentiu. Ora, se Jesus
tivesse realmente praticado os principais atos de sua vida em
Jerusalém, seria conhecido suficientemente, e, então, não
teriam que pagar a Judas 30 dinheiros para entregar o Mestre.
João, que teria sido o precursor do
Messias, não se fez cristão, não seguiu a Jesus, pregando
apenas o judaísmo no aspecto próprio. Entretanto, depois de
preso, enviou um mensageiro a Jesus, indagando-lhe: “És tu que
hás de vir, ou teremos de esperar um outro?”, ao que Jesus
teria respondido: “Você é o profeta Elias”. Talvez houvesse
esquecido que o próprio João antes já declarara isso mesmo.
Contam os Evangelhos que, desde a hora sexta até Jesus exalar o
último suspiro, a terra cobriu-se de trevas. Contudo, nenhum
escritor da época comenta tal acontecimento.
Marcos 25:25 diz que Jesus foi sacrificado
às 9 horas. João diz que ao meio dia ele ainda não havia sido
condenado à morte, e acrescenta que, a esta hora, Pilatos
tê-lo-ia apresentado ao povo exclamando: “Eis aqui o vosso rei”!
Emilio Bossi assinala detalhadamente todas
estas contradições, e as que se deram após a pretensa
ressurreição, dizendo que nada do que vem nos Evangelhos deve
ser levado a sério. O sobrenatural é o clima em que se encontra
a Bíblia, e esta é apenas o resultado da combinação de
crenças e superstições religiosas dos judeus com as de outros
povos com os quais conviveram.
XI
As
Contradições Evangélicas
Mateus e Marcos afirmam enfaticamente
que os discípulos de Jesus abandonaram tudo para segui-lo, sem
sequer perguntar antes quem era ele. Em Mateus, lê-se que Jesus
teria afirmado que não viera para abolir as leis de Moisés.
Contudo, esta seria uma afirmativa sem sentido algum, visto que
hoje sabemos que os livros atribuídos a Moisés são apócrifos.
Segundo João, quando Jesus falou ao
povo, foi por este acatado e proclamado rei de Israel, aos gritos
de “Hosanna”. Mas, um pouco adiante, ele se contradiz,
afirmando que o povo não acreditou em Jesus, e imprecando contra
ele, ameaçava-o a ponto de ele haver procurado esconder-se.
Mateus diz que Jesus entrara em
Jerusalém, vitoriosamente, quando a multidão tê-lo-ia recebido
de modo festivo, e marchando com ele, juncava o chão com folhas,
flores e com os próprios mantos, gritando: “Hosanna ao Filho de
David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor!” Aos que
perguntavam quem era, respondiam “Este é Jesus, o profeta de
Nazaré da Galiléia”. No entanto, outros evangelistas afirmam
que ele era um desconhecido em Jerusalém.
Disseram que Pilatos estava
convencido da inocência de Jesus, razão porque teria tentado
salvá-lo, abandonando-o logo a seguir, indefeso e moralmente
arrasado.
João faz supor que Pilatos teria
deixado matar a Jesus, temendo que denunciassem sua parcialidade
ao imperador. Se ele não castigasse a um insurreto que se
intitulara rei dos judeus, estaria traindo a César. No entanto,
tal atitude por parte de Pilatos não combina com o seu retrato
moral, pintado por Filon. Era um homem duro e tão desumano quanto
Tibério. A vida de mais um ou menos um judeu, para ambos, era
coisa da somenos importância. Filon faz de Pilatos um carrasco, e
mostra que ele, em Jerusalém, agia com carta branca. Além disso,
as reações de Pilatos com Tibério eram quase fraternais e ele
era um delegado de absoluta confiança do imperador. Mas, como os
Evangelhos foram compostos dentro dos muros de Roma, teriam de ser
de modo a não desagradar às autoridades Imperiais. Pilatos foi
posto nisso apenas porque os bens e a vida dos judeus estavam sob
sua custódia. Entretanto, como a ocupação romana foi feita em
defesa dos judeus ricos, contra os judeus pobres e os salteadores
do deserto, as autoridades romanas temiam muito mais ao povo do
que a Roma.
Além disso, muitas eram as razões
para não gostarem de Pilatos nem de Herodes Antipas. Eles eram
antipáticos aos judeus pobres, por isso teriam temido a ira
popular. Esta é a razão apresentada pelos historiadores que
levam a sério os Evangelhos, justificando assim o perdão do
criminoso Bar Abbas e a condenação do inocente Jesus.
Entretanto, se as legiões romanas realmente ali estivessem
naquela época, nem Pilatos nem Herodes tomariam em consideração
a opinião do povo, porque se sentiriam garantidos nos seus
postos.
Além disso, a opinião popular é
fator ainda bem novo na técnica de formação dos governos. Tudo
o que sabemos é o que está nos Evangelhos. Jesus era um homem do
povo e um dos que temiam o governo. Por isso é que em Marcos,
16:7 encontraremos Jesus aconselhando os discípulos a fuga. Em
Lucas 10:4 Jesus está aconselhando aos discípulos a não falarem
a ninguém em suas viagens.
Em Mateus 35:23 encontraremos Jesus
reprovando os judeus que haviam assassinado Zacarias, filho de
Baraquias, entre o adro do templo e o altar. A história, no
entanto, afirma ser esse episódio imaginário. Flávio Josefo
relata um acontecimento semelhante, registrado no ano 67, 34 anos
após a pretensa morte de Jesus, referindo-se no caso a um homem
chamado Baruch. Isto evidencia o descuido dos compiladores dos
Evangelhos, que os compuseram sem levar em conta que, no futuro,
as contradições neles encontradas seriam a prova da
inautenticidade dos fatos relatados.
Nicodemos, que teria sido um fariseu
rico, membro de Senedrin, homem de costumes morigerados e de
boa-fé, não se fez cristão, apesar de ter agido em defesa de
Jesus contra os próprios judeus. Por certo ele, como João
Batista, não se convenceram da pretensa divindade de Jesus
Cristo, nem mesmo se entusiasmaram com suas pregações.
Outra ficção evangélica é
debitada a Paulo, o qual inventou um Apolo, que não figura entre
os apóstolos e em nenhum outro relato. Em Atos dos Apóstolos 18,
lê-se: “Veio de Éfeso um judeu de nome Apolo, de Alexandria,
homem eloqüente e muito douto nas Escrituras. Este era instruído
no caminho do Senhor, falando com fervor de espírito, ensinando
com diligência o que era de Jesus, e somente conhecia João
Batista. Com grande veemência convencia publicamente os judeus,
mostrando-lhes pelas Escrituras que Jesus era o Cristo”. Seria
um judeu fiel ao judaísmo que, segundo Paulo, procurava levar
seus próprios patrícios para o Cristo? Na epístola I aos
Coríntios, diz que: “Apolo era igual a Jesus”.
Paulo, já no fim do seu apostolado,
afirma que o imperador Agripa era um fariseu convicto, e que sua
religião era a melhor que então existia. Era, assim, um
divulgador do cristianismo afirmando a excelência do farisaísmo.
Falando de Jesus, Paulo descreve apenas um personagem teológico e
não histórico. Não se refere ao pai nem à mãe de Jesus, sendo
um ser fantástico, uma encarnação da divindade que viera
cumprir um sacrifício expiatório, mas não se reporta ao modo
como teria sido possível a encarnação. Não diz sequer a data
em que Jesus teria nascido. Não relata como nem quando foi
crucificado. No entanto, estes dados têm muita importância para
definir Jesus como homem ou como um ser sobrenatural. Está
patente, desse modo, que Paulo é uma figura tão mitológica
quanto o próprio Jesus.
Em Atos dos Apóstolos 28:15 e em 45
Paulo diz que, quando chegou a Pozzuoli, ele e os seus
companheiros foram ali bem recebidos, havendo muita gente à beira
da estrada esperando-os. Entretanto, chegando a Roma, teve de
defender-se das acusações de haver ofendido em Jerusalém ao
povo e aos ritos romanos.
Na Epístola aos Romanos 1:8 Paulo
diz que a fé dos cristãos de Roma alcançara todo o mundo,
razão porque encerraria sua missão tão logo regressasse da
Espanha, onde saudaria um grande número de fiéis. Mas, se assim
fosse, por que Paulo teve de se defender perante os cristãos de
Roma, contra o seu próprio judaísmo?
Com pouco tempo
Paulo já pensava encerrar sua missão porque o cristianismo já
se universalizara. Entretanto, ele continuava considerando como
melhor religião o farisaísmo. O cristianismo a que Paulo
referia-se deveria ser anterior a Jesus Cristo, que era o seguido
pelos cristãos de Roma, e não pelos cristãos dos lugares por
onde Paulo havia passado pregando.
Eusébio disse que o cristianismo de
Paulo era o terapeuta do Egito, e Tácito disse que os hebreus e
os egípcios formavam uma só superstição.
XII
Algumas
Fontes do Cristianismo
O passado religioso do homem está repleto
de deuses solares e redentores. Na índia, temos Vishnu, um deus
que se reencarnou nove vezes para sofrer pelos pecados dos homens.
No oitavo avatar foi Krishna e, no nono, Buda. Krishna foi
igualmente um deus redentor, nascido de uma virgem pura e bela,
chamada Devanaguy. Sua vinda messiânica foi predita com muita
antecedência, conforme se vê no Atharva, no Vedangas e no
Vedanta. O deus Vishnu teria aparecido a Lacmy, mãe da virgem
Devanaguy, informando que a filha iria ter um filho-deus, e qual o
nome que deveria dar-lhe. Mandou que não deixasse a filha
casar-se, para que se cumprissem os desígnios de deus. Tal teria
acontecido 3.500 anos a.C. no Palácio de Madura. O filho de
Devanaguy destronaria seu tio. Para evitar que acontecesse o que
estava anunciado, Devanaguy teria sido encerrada em uma torre, com
guardas na porta. Mas, apesar de tudo, a profecia de Poulastrya
cumpriu-se, “O espírito divino de Vishnu atravessou o muro e se
uniu à sua amada”. Certa noite ouviu-se uma música celestial e
uma luz iluminou a prisão, quando Viscohnu apareceu em toda a sua
majestade e esplendor. O espírito e a luz de deus ofuscaram a
virgem, encarnando-se. E ela concebeu. Uma forte ventania rompeu a
muralha da prisão quando Krishna nasceu. A virgem foi arrebatada
para Nanda, onde Krishna foi criado, lugar este ignorado do rajá.
Os pastores teriam recebido aviso celeste do
nascimento de Krishna, e então teriam ido adorá-lo, levando-lhe
presentes. Então o rajá mandou matar todas as criancinhas
recém-nascidas, mas Krishna conseguiu escapar. Aos 16 anos,
Krishna abandonou a família e saiu pela Índia pregando sua
doutrina, ressuscitando os mortos e curando os doentes. Todo o
mundo corria para vê-lo e ouvi-lo. E todos diziam: “Este é o
redentor prometido a nossos pais”. Cercou-se de discípulos, aos
quais falava por meio de parábolas, para que assim só eles
pudessem continuar pregando suas idéias.
Certo dia os soldados quiseram matar
Krishna, quando seus discípulos amedrontados fugiram. O Mestre
repreendendo-os, e chamou-os de homens de pouca fé, com o que
reagiram e expulsaram os soldados. Crendo que Krishna fosse uma
das muitas transmigrações divinas, chamaram-no “Jazeu”, o
nascido da fé. As mulheres do povo perfumavam-no e incensavam-no,
adorando-o.
Chegando sua hora, Krishna foi para as
margens do rio Ganges, entrando na água. De uma árvore,
atiraram-lhe uma flecha que o matou. O assassino teria sido
condenado a vagar pelo mundo. Quando os discípulos procuraram
recolher o corpo, não o encontraram mais porque, então, já
teria subido para o céu.
Depois Vishnu tê-lo-ia mandado novamente à
terra pela nona vez, receberia o nome de Buda. O nascimento de
Buda teria sido, igualmente, revelado em sonhos à sua mãe.
Nasceu em um palácio, sendo filho de um príncipe hindu. Ao
nascer, uma luz maravilhosa teria iluminado o mundo. Os cegos
enxergaram, os surdos ouviram, os mudos falaram, os paralíticos
andaram, os presos foram soltos e uma brisa agradável correu pelo
mundo. A terra deu mais frutos, as flores ganharam mais cores e
fragrância, levando ao céu um inebriante perfume. Espíritos
protetores vigiaram o palácio, para que nada de mal acontecesse
à mãe. Buda, logo ao nascer, pôs-se de pé maravilhando os
presentes.
Uma estrela brilhante teria surgido no céu
no dia do seu nascimento. Nasceu também, nesse mesmo dia, a
árvore de Bó, a cuja sombra o menino deus descansaria. Entre os
que foram ver Buda, estava um velho que, como Semeão, recebeu o
dom da profecia. Sua tristeza seria não poder assistir à glória
de Buda por ser muito velho.
Buda teria maravilhado os doutores da lei
com a sua sabedoria. Com poucos anos de idade, teria começado sua
pregação. Teria ficado durante 49 dias sob árvore de Bó, e
sido tentado várias vezes pelo demônio. Pregando em Benares,
convertera muita gente. O mais célebre de seus discursos recebeu
o nome de “Sermão da Montanha”. Após sua morte apareceria
também aos seus discípulos, trazendo a cabeça aureolada.
Davadatta trai-lo-ia do mesmo modo que Judas a Jesus. Nada tendo
escrito, os seus discípulos recolheriam os seus ensinamentos
orais. Buda também tivera os seus discípulos prediletos, e seria
um revoltado contra o poder abusivo dos sacerdotes bramânicos.
Mais tarde, o budismo ficaria dividido em muitas seitas, como o
cristianismo.
Quando missionários cristãos estiveram na
índia, ficaram impressionados e começaram a perceber como nasceu
o romance da vida de Jesus. O Papa do budismo, o Dalai-Lama,
também se diz ser infalível.
Mitra, um deus redentor dos persas, foi o
traço de união entre o cristianismo e o budismo. Cristo foi um
novo avatar, destinado aos ocidentais. Mitra era o intermediário
entre Ormuzd e o homem. Era chamado de Senhor e nasceu em uma
gruta, no dia 25 de dezembro. Sua mãe também era virgem antes e
depois do parto. Uma estrela teria surgido no Oriente, anunciando
seu nascimento. Vieram os magos com presentes de incenso, ouro e
mirra, e adoraram-no. Teria vivido e morrido como Jesus. Após a
morte, a ressurreição em seguida.
Fírmico descreveu como era a cerimônia dos
sacerdotes persas, carregando a imagem de Mitra em um andor pelas
ruas, externando profunda dor por sua morte
Por outro lado, festejavam alegremente a ressurreição, acendendo
os círios pascais e ungindo a imagem com perfumes. O Sumo
Sacerdote gritava para os crentes que Mitra ressuscitara, indo
para o céu para proteger a humanidade.
Os ritos do budismo, do mitraísmo e do
cristianismo são muito semelhantes. Horus foi o deus solar e
redentor dos egípcios. Horus, como os deuses já citados, também
nasceria de uma virgem. O nascimento de Horus era festejado a 25
de dezembro.
Amenófis III criou um mito religioso, que
depois foi adaptado ao cristianismo. Trata-se da anunciação,
concepção, nascimento e adoração de Iath. Nas paredes do
templo, em Luxor, encontram-se os referidos mistérios.
Baco, o deus do vinho, foi também um deus
salvador. Teria feito muitos milagres, inclusive a transformação
da água em vinho e a multiplicação dos peixes. Em criança,
também quiseram matá-lo.
Adonis era festejado durante oito dias,
sendo quatro de dor e quatro de alegria; as mulheres faziam as
lamentações, como as carpideiras pagas de Portugal. O rito do
Santo Sepulcro foi copiado do de Adonis. Apagavam todos os
círios, ficando apenas um aceso, o qual representava a esperança
da ressurreição. O círio aceso ficava semi-escondido, só
reaparecendo totalmente no momento da ressurreição, quando
então o pranto das mulheres era substituído por uma grande
alegria.
Também os fenícios, muitos milênios
antes, já tinham o rito da paixão, do qual copiaram o rito da
paixão de Cristo.
Todos os deuses redentores passaram
pelo inferno, durante os três dias entre a morte e a
ressurreição. Isto é o que teria acontecido com Baco, Osiris,
Krishna, Mitra e Adonis. Nestes três dias, os crentes visitavam
os seus defuntos, segundo Dupuis, em “L' Origine des tous les
cultes”.
Todos os deuses redentores eram também
deuses-sol, como Átis, na Frígia; Balenho, entre os celtas;
Joel, entre os germanos; Fo, entre os chineses.
Assim, antes de Jesus Cristo, o mundo já
tivera inúmeros redentores. Com este ligeiro apanhado da
mitologia dos deuses, deixamos patente a origem do romance do
Gólgota. Acreditamos ter esclarecido quais as fontes onde os
criadores do cristianismo foram buscar inspiração.
XIII
Jesus
Cristo, uma Cópia Religiosa
O precedente estudo permite-nos constatar
que, nas diversas épocas da história, as religiões
transformam-se, variando em razão da complexidade cada vez maior
das sociedades em que elas existem.
Vimos que a crença em um deus redentor é
muito anterior ao judaísmo, sempre ligada à ânsia da
necessidade de redenção das tremendas aflições do populacho.
Quanto a Jesus Cristo, resultou de uma série de mitos, que os
hebreus copiaram dos babilônicos, dos egípcios e de outros
povos, visando com isto dar consistência ao judaísmo.
Estudos filológicos forneceram as bases
para o estabelecimento de um traço de união entre as crenças
dos deuses orientais e o judaísmo. Tomemos, por exemplo, as
palavras Ahoura-Mazzda e Jeová, que significam “O que é”.
Partindo de velhas lendas orientais, e baseando-se na origem comum
da palavra, foi compilado o Gênese, numa tentativa de explicar a
criação do mundo. Segundo o Zend-Avesta, o Ser Eterno criou o
céu e a terra, o sol a lua, as estrelas, tudo em seis períodos,
aparecendo o homem por último.
O descanso foi posto no sétimo dia. Manu
havia ensinado, muito antes, que no começo tudo era trevas,
quando Bhrama dispersou-as, criou e movimentou a água, em seguida
produziu os deuses secundários, os anjos dirigidos por Mossura,
os quais posteriormente rebelar-se-iam contra Deus. Veio então
Shiva, e arrojou-os ao inferno. Shiva tornou-se a terceira pessoa
da Santíssima Trindade Bhramânica em conseqüência das
sucessivas invasões bárbaras sofridas pela Índia. Os bárbaros,
crendo em Shiva, o deus da lascívia e do sensualismo, impuseram
sua inclusão, com o que surgiu a trindade divina de Bhrama.
Manu ensinara igualmente que Deus criara o
homem e a mulher, fazendo-os apenas inferior a Devas, isto é,
Deus. O primeiro homem recebera o nome de Adima ou Adam, e a
primeira mulher, Heva, significando o complemento da vida. Foram
postos no paraíso celeste e receberam ordem de procriar. Deveriam
adorar a Deus, não podendo sair do paraíso. Mas, um dia, indo
ver o que havia fora dali, desapareceram. Bhrama perdoou-os, mas
expulsou-os, condenando-os a trabalhar para viver. E disse que,
por haverem desobedecido, a terra tornar-se-ia má, porque o
espírito do mal dela se apoderara.
Entretanto, mandaria seu filho Vishnu que,
se encarnando em uma virgem, redimiria a humanidade, libertando-a
definitivamente do pecado da desobediência.
Ormuzd teria prometido ao primeiro casal
humano que, se fossem bons, seriam felizes na terra. Mas Arimã
mandou que um demônio em forma de serpente aconselhasse a
desobedecerem a deus. Comeram os frutos que Arimã lhes deu,
acabou a felicidade humana, e todos os que nascessem daí em
diante seriam infelizes. Sendo levados cativos para a Babilônia,
os judeus ali encontraram tal lenda. Libertos, voltando à
Judéia, trouxeram essa crendice, como também a crença da
imortalidade da alma e da vida futura, dos espíritos bons e
espíritos maus, surgindo daí os anjos Gabriel, Miguel e Rafael,
os querubins e serafins. Nasceu daí o mito do diabo, o anjo
rebelado.
A palavra paraíso é o termo persa que
significa jardim. Os persas, os hindus, os egípcios e os gregos
criam no paraíso. Da mesma forma, todos eles criam no inferno.
Entretanto, as crenças antigas desconheciam as penas eternas, que
foram criadas pelo cristianismo, aliás, uma das poucas coisas
originárias dessa crença. Também o purgatório, naturalmente,
é outra novidade do cristianismo, sendo desconhecido do
judaísmo. A idéia do purgatório vem de Platão, que havia
dividido as almas em puras, curáveis e incuráveis.
Os filhos de Adima e Heva haviam-se tornado
numerosos e maus. Por isso, Deus mandou o dilúvio para matá-los.
Mas deu ordem a Vadasuata para construir um barco e nele entrar
com a família, devido ao fato de ser um homem virtuoso. Deveria
levar consigo, além da família, um casal de cada espécie de
animal existente: esta é a história do dilúvio relatada nos
Vedas, e que foi incluída na Bíblia dos cristãos.
As origens do cristianismo
repousam, incontestavelmente, nas lendas e crenças dos deuses
mitológicos, não apenas dos judeus, mas também de outros povos.
Os caldeus e os fenícios, como os judeus,
haviam-se especializado no comércio, e por dever de ofício,
alfabetizaram-se. Assim, sabendo ler e escrever, puderam copiar as
lendas e o folclore dos povos com os quais comerciavam e
conviviam, os quais puderam adquirir longevidade e fixar-se melhor
na memória humana.
Sendo comerciantes por excelência, os
judeus perceberam que a religião poderia tornar-se uma boa
mercadoria, através da qual adviria o domínio de muitos povos e
vontades. Desta forma, tendo compilado o que julgaram mais
interessante ou mais proveitoso em relação aos seus propósitos,
passaram a difundir pelo mundo as suas idéias religiosas. Com
isto, o conhecimento e a razão foram substituídos pelas
crendices e superstições religiosas.
Desde há muito a religião tem servido para
moderar os impulsos humanos, sobretudo daqueles que pertencem a
uma classe social menos favorecida.
Salientamos o prejuízo que o mundo tem
sofrido com o rebaixamento mental imposto com as crenças e
superstições religiosas, com o que o conhecimento sofre uma
estagnação sensível.
No entanto, o homem
tem-se deixado levar pelas crenças e práticas religiosas sem que
nenhum benefício lhe advenha em retribuição. O homem tem feito
tudo por si mesmo, apesar de sua religiosidade. A única classe
beneficiada realmente com a religião é a dos sacerdote.
Retornamos ao assunto em pauta, após uma
rápida digressão. A Bíblia cita dez patriarcas que teriam
morrido em idade avançada, antes do dilúvio. Contudo, essa lenda
provém da tradição caldáica, segundo a qual dez reis
governaram durante 432 anos. Da mesma forma, as lendas hindus,
egípcias, árabes, chinesas ou germânicas fazem referência a
homens que teriam tido uma longa vida, como a do Matusalém da
Bíblia.
Igualmente, a lenda de Abraão, que deveria
sacrificar o seu filho Isaac, procede de lendas anteriores ao
judaísmo. O livro das profecias hindus relata uma história
igual. Ramatsariar conta que Adgitata, protegido de Bhrama, por
ser um homem de bem, teve um filho que nasceu tão milagrosamente
como Jesus. Entretanto, Bhrama, para experimentá-lo, ordena-lhe
que sacrificasse o filho. Ele obedece, mas Bhrama impede-o no
momento exato, seu filho seria o pai de uma virgem, a qual, por
sua vez, seria a mãe de deus-homem.
José e a mulher de Putifar foi a cópia de
uma velha lenda egípcia, conforme documentos recentemente
traduzidos. Era uma história intitulada “Os dois irmãos”.
Emílio Bossi, relatando o achado, dá a
palavra a Jacolliot: “Um homem da Índia fez leis políticas e
religiosas; chamava-se Manu. Esse mesmo Manu foi o legislador
egípcio, Manas. Um cretense vai ao Egito estudar as
instituições que pretende dar ao seu pais, e a história
confirma-nos isto dizendo que esse cretense foi Minos. Enfim, o
libertador dos escravos judeus chamava-se Moisés, que teria
recebido as leis das mãos do próprio Jeová. Temos, então,
Manu, Manes, Minos e Moisés, os quatro nomes que predominaram no
mundo antigo. Aparecem nos albores de quatro diversos povos para
representar o mesmo papel, rodeados da mesma auréola misteriosa,
os quatro são legisladores, grandes sacerdotes e fundadores das
sociedades teocráticas e sacerdotais. Esses quatro nomes têm a
mesma raiz sânscrita. O hinduismo deu origem ao judaísmo. Por
isso, de Jeseu Krishna fizeram Jesus Cristo”.
Documentos recentemente estudados mostram
terem sido os hindus os prováveis colonizadores do Egito. A
documentação demonstra que o conhecimento nasceu do saber hindu.
A assiriologia mostra que a lenda de Moisés
foi copiada da de Sargão I, rei acádio, que igualmente teria
sido salvo em um cesto deixado no rio, à deriva.
A lenda de Sansão é outro exemplo. Sansão
representa o sol. O poder que lhe foi atribuído é o mesmo dos
deuses solares. E, assim, examinando os escritos de antigas
civilizações, chegamos ao conhecimento das origens de tudo o que
a Bíblia narra como fatos reais. Concluímos então que Jesus
Cristo nada mais representa que uma cópia das lendas e mitos dos
deuses adorados por povos os mais remotos e variados.
XIV
Os
Deuses Redentores
Percebendo a importância da luz do sol
sobre a terra, o homem imaginou que essa luz seria uma emanação
protetora de Deus. Da idéia de que existia um único sol, surgiu
o monoteísmo, isto é, a crença em um só Deus.
Das palavras Devv e
Divv, que em sânscrito significam sol e luminoso, originou-se a
palavra deus. Daí, em grego, a palavra Zeus; em latim, deo; para
os irlandeses, dias; em italiano dio, etc.
A parte do tempo em que a terra recebe a luz
do sol recebeu o nome dia em oposição ao período de trevas, a
noite. O dia teria sido um presente divino, graças à luz solar.
Conseguindo produzir o fogo, aumentou a crença humana no deus
sol. Graças ao fogo, o homem pôde libertar-se de um dos seus
maiores inimigos, que era o frio, assim como passou a cozinhar os
seus alimentos. Devendo cada vez mais a vida ao calor, a gratidão
do homem para com o sol cresceu ainda mais. Foi assim que nasceu o
mito solar, do qual Jesus Cristo é o último rebento.
Por uma série de ilações, chegaram
igualmente à concepção do significado místico da cruz. Dos
raios solares foi criada uma cruz, espargindo raios por todos os
lados. Da mesma forma foi a idéia do Espírito Santo, um
espírito benfazejo, que irradia a bondade divina. Depois a
seqüência mística do sol, o fogo e o vento, dando origem a
Salvitri, Agni e Vayu, do mito védico.
O rito védico celebra o nascimento de
Salvitri, o deus-sol, em 25 de dezembro, no solstício, quando
aparecem as refulgentes estrelas. As estrelas trazem a boa nova, a
perspectiva de boas colheitas. Daí os sacrifícios e os ritos
propiciatórios oferecidos ao deus-sol.
Assim os cristãos encontraram o seu Jesus
Cristo.
A vida dos deuses redentores é a vida do
sol. Por isso, todos eles tiveram suas datas de nascimento fixadas
em 25 de dezembro: Mitra, Horus e Jesus Cristo. Também é
simbólica a ressurreição na primavera, tempo da germinação e
das folhas novas. Baseando-se nisto, Aristóteles e Platão
admitiram uma certa racionalidade dos que adoravam o sol.
Heródoto e Estrabão diziam que Mitra era o
deus-sol, tendo por emblema um sol radiante. Plutarco conta que o
culto de Mitra veio para a Sicília trazido pelos piratas do mar.
Em escavações feitas no solo italiano, foram encontradas placas
de barro solidificados ao sol trazendo esta inscrição: “Deo
Soli Invicto Mitrae”, lembrando o deus dos persas.
Niceto escreveu que certos povos adoraram a
Mitra como o deus do fogo, outros como sendo o deus-sol.
Júlio Fírmino Materno disse que Mitra era
a personificação do deus fogo, enquanto Aquelau considerava-o o
deus-sol.
São Paulino descreveu os mistérios de
Mitra como sendo os de um deus solar e redentor. Karneki, rei
hindo-escita, no começo de nossa era, mandou cunhar moedas em que
se vê a efígie de Mitra dentro de um sol radiante. Mitra ainda
era representado com um disco solar na cabeça, segurando um globo
com a mão esquerda. Do mesmo modo os cristãos representam Jesus
Cristo. Era o Senhor. Ao surgir o cristianismo, os cristãos
primitivos ainda chamavam o sol de “Dominus”, com o que,
lentamente, foi absorvendo o ritual mitráico.
No Egito, o sol era o “Pai Celestial”.
Um obelisco trazido para o Circo Máximo de Roma trazia esta
inscrição: “O grande Deus, o justo Deus, o todo esplendente”,
tendo um sol espargindo seus raios para todos os lados.
Da mesma forma, todos os deuses dos índios
americanos pertenciam ao rito solar, assim como os deuses dos
hindus, dos chineses e japoneses. Os caldeus, adorando o sol como
seu deus, dedicaram-lhe a cidade de Sípara, onde ardia o fogo
sagrado, eternamente, em sua honra. Em Edessa e em Palmira foram
encontrados templos dedicados ao deus-sol. Orfeu considerava o sol
como sendo o deus maior. Agamenon disse que o sol era o deus que
tudo via e de que tudo provinha.
Os judeus e os líderes do cristianismo,
para a formação deste, só tiveram de adaptar as crenças e
rituais antigos a um novo personagem: Jesus Cristo. Toda a
roupagem necessária para vestir o novo deus preexistia. Apenas
fazia-se necessário amoldá-la um pouco.
XV
Jesus
Cristo É um Mito Solar
Tendo em vista o
completo silêncio histórico a respeito de Jesus Cristo, bem como
as evidentes ligações deste com o mito dos deuses-solares,
Dupuis escreveu o seguinte: “Um deus nascido de uma virgem, no
solstício do inverno, que ressuscita na Páscoa, no equinócio da
primavera, depois de haver descido ao inferno; um deus que leva
atrás de si doze apóstolos, correspondentes às doze
constelações; que põe o homem sob o império da luz, não pode
ser mais que um deus solar, copiado de tantos outros deuses
heliosísticos em que abundavam as religiões orientais. No céu
da esfera armilar dos magos e dos caldeus via-se um menino
colocado entre os braços de uma virgem celestial, a que
Eratóstenes dá como Ísis, mãe de Horus. Seu nascimento foi a
25 de dezembro. Era a virgem das constelações zodiacais. Graças
aos raios solares, a virgem pôde ser mãe sem deixar de ser
virgem... Via-se uma jovem ‘Seclanidas de Darzana', que em
árabe é ‘Adrenadefa', e significa virgem pura, casta,
imaculada e bela... Está assentada e dá de mamar a um filho que
alguns chamam de Jesus e, nós, de Cristo”.
Já vimos que Jesus
repete todos os mistérios dos deuses solares e redentores, pelo
que Heródoto, Plutarco, Lactâncio e Firmico puderam afirmar que
esse deus redentor é o sol. De modo que Jesus é apenas mais um
deus solar.
Ainda hoje, grande
parte do rito cristão é de origem solar. Na Bíblia, encontramos
estas palavras: “Deus estabeleceu sua tenda no sol”, e ainda:
“Sobre vós que temeis o meu nome, levantar-se-á o sol da
justiça e vossa vida estará em seus raios”.
João diz que “o
verbo é a lei, a luz e a vida, a luz que Ilumina a vista de todos
os mortais, a luz do mundo”. E ainda chama a Jesus de o “cordeiro”,
o “Agnus Dei qui tollit peccata mundi”. Com isto, o Apocalipse
fez de Jesus o “cordeiro pascal”, e a Igreja adorou-o sob a
forma de um cordeiro até o ano de 680. Era o Cristo o Áries
zodiacal, vindo de Agnus, com a significação de fogo, o sol
condensado.
Origenes justificava
a adoração do sol tendo em vista a sua luz sensível e também
pelo aspecto espiritual.
Tertuliano reconheceu
que o dogma da ressurreição tem sua origem na religião persa de
Mitra. Para S. Crisóstomo, Jesus era o sol da justiça, para
Sinésio, o sol intelectual. Fírmico Materno descreveu Jesus
baixando ao inferno, esplendente como o sol.
O domingo, o dia do
Senhor, o dia do descanso, procede de Dominus, o deus-sol, o
Senhor.
Segundo Teodoro e
Cirilo, para o maniqueus Cristo era o sol. Os Saturnilianos
acreditavam que a alma tinha substância solar, deixando o corpo e
voltando para o sol, de onde proviera, após a morte.
O antigo rito do
batismo determinava que o catecúmeno voltasse o rosto em primeiro
lugar para o ocidente, para retirar de si a satanás, símbolo das
trevas.
Igualmente, as festas
do sábado santo são reminiscências do mito da luta do sol
contra as trevas, na Páscoa. As orações desse ofício são
cópia dos hinos védicos. A palavra aleluia, que era o grito de
alegria dos persas, adoradores do sol, quando na Páscoa
festejavam a sua volta, significa: elevado e brilhante.
Foram necessários
muitos séculos para que a igreja pudesse alienar um pouco do que
lembrava que o seu culto era de um deus solar. Entretanto, a
história escrita é inflexível, e demonstra que todos os deuses
redentores ou solares foram tão adorados quanto o mitológico
Jesus Cristo. E embora tenha havido longas fases em que foram
impostos a ferro e fogo, nem por isto deixaram de cair, nada mais
sendo hoje do que o pó do passado religioso do homem.
O certo é que Jesus
Cristo é mitológico de origem, natureza e significação. O seu
surgimento ocorreu para atender à tendência religiosa e mística
da maioria, que ainda hoje teme as realidades da vida e, portanto,
procura, para orientar-se, algo fora da esfera humana, na
esperança de assim conseguir superar a si mesmo e aos obstáculos
que surgem quotidianamente.
O cristianismo é
produto de tendências naturais de uma época, aproveitadas
espertamente pelos líderes do cristianismo. O judeu pobre e
oprimido, não tendo para quem apelar, passou a esperar de Deus
aquilo que o seu semelhante lhe negava. O sacerdote, valendo-se do
deplorável estado de espírito de uma população faminta e,
sobretudo, desesperançada, ressuscitou um dentre os velhos deuses
para restaurar a esperança do povo judeu. E, assim, surgiu mais
um mito solar, mais um deus com todos os atributos divinos, tal
como os que antecederam. O novo deus solar em questão é Jesus
Cristo.
XVI
Outras
Fontes do Cristianismo
Conforme temos dito
repetidas vezes, o cristianismo tomou por empréstimo tudo quanto
se fez necessário à sua formação. Assim, todos os ensinamentos
atribuídos a Cristo foram copiados dos povos com os quais os
judeus tiveram convivência. A sua moral, a moral que Cristo teria
ensinado, aprendeu-a com os filósofos que o antecederam em muitos
séculos.
De sorte que não há
inovações em nenhum setor ou aspecto do cristianismo. Antigos
povos, milênios antes, adoraram seus deuses semelhantemente.
Dentre as máximas
adotadas pelo cristianismo, comentaremos a seguinte: “Não
faças aos outros o que não queres que a ti seja feito”. Este
ensinamento não teria partido de Jesus, conforme pretendem os
cristãos, não sendo sequer uma máxima cristã, originariamente.
Encontrá-la-emos em
Confúcio, e ainda no bramanismo, no budismo e no mazdeismo,
fundado por Zoroastro. Era uma orientação filosófica e
religiosa, adotada pelos hindus. A originalidade do cristianismo
consistiu apenas em criar as penas eternas, um absurdo desumano e
irracional. Enquanto isso, o mazdeismo cria a possibilidade de
regeneração do pior bandido, admitindo mesmo a sua plena
reintegração no seio da sociedade.
O perdão aos
inimigos foi, muito antes de Jesus, aconselhado por Pitágoras. Os
egípcios religiosos praticavam uma moral muito elevada. No “Livro
dos Mortos” encontramos a confissão negativa, de acordo com a
qual a alma do morto comparecia ante o tribunal de Osiris e
proferia em alta voz as suas más ações.
O sentimento de
igualdade e fraternidade para com os homens foi ensinado por
Filon. O cristianismo adotou os seus ensinamentos, atribuindo-os a
Jesus. São de Filon as seguintes palavras: “Os que exaltam as
grandezas do mundo como sendo um bem, devem ser reprimidos.”;
“A distinção humana está na inteligência e na justiça,
embora partam do nosso escravo, comprado com o nosso dinheiro.”;
“Porque hás de ser sempre orgulhoso e te achares superior aos
outros?”; “Quem te trouxe ao mundo? Nu vieste, nu morrerás,
não recebendo de Deus senão o tempo entre o nascimento e a
morte, para que o apliques na concórdia e na justiça, repudiando
todos os vícios e todas as qualidades que tornam o homem um
animal”; “A boa vontade e o amor entre os homens são a fonte
de todos os bens que podem existir”. Como vemos, não há nada
de novo no cristianismo.
Platão salientou a
felicidade que existe na prática da virtude. Ensinou a
tolerância à injúria e aos maus tratos, e condenou o suicídio.
Recomendou o humanismo, a castidade e o pudor, e condenou a
volúpia, a vingança e o apego demasiado aos bens. Sua moral
baseou-se na exaltação da alma, no desprezo dos sentidos e na
vida contemplativa. O Padre Nosso foi copiado de Platão. Quem
conhece bem a obra de Platão percebe os traços comuns entre a
mesma e o cristianismo. Filon inspirou-se em Platão e, a Igreja,
na obra de Filon, que helenizou o judaísmo.
Aristóteles afirmou
que a comunidade repousa no amor e na justiça. Admitia a
escravatura, mas libertou os seus escravos. Poderiam existir
escravos, mas não a seu serviço. A comunidade deveria instruir a
todos, independentemente da classe social, com o que ensinou o
evangelho aos Evangelhos.
A abolição do
sacrifício sangrento não foi introduzida pelo cristianismo. Não
lhe cabe tal mérito. Gélon, da Sicília, firmando a paz com os
cartagineses, estipulou como condição a supressão do
sacrifício de vidas animais aos seus deuses.
Sêneca aconselhava o
domínio das paixões, a insensibilidade à dor e ao prazer.
Recomendava igualmente a indulgência para com os escravos,
dizendo que todos os homens são iguais. Referia-se ao céu como
fazem os cristãos, afirmando que todos são filhos de um mesmo
pai. Concebia como pátria o Universo. Os homens deveriam se
ajudar e se amar mutuamente. Enquanto isso, o humanismo cristão
limitou-se apenas aos irmãos de fé. O bem visa somente a
salvação da alma, o que é egoísmo, nunca humanismo. Sêneca
manifestou-se contrário à pena de morte; o cristianismo, ao
contrario, é responsável por inúmeras execuções. Admitia a
tolerância mesmo em face da culpa. Em vez de perseguir e punir,
por que não persuadir, ensinar e converter?
Epíteto e Marco
Aurélio foram bons professores dos cristãos. Os filósofos
greco-romanos foram grandes mestres da moral cristã e da
consolação, sem que para isto criassem empresas, negócios ou
castas. O cristianismo existente antes de Jesus Cristo já pregava
a moral anterior ao martírio do Gólgota. A moral cristã não
veio de Jesus Cristo nem dos Evangelhos, mas nasceu da tendência
natural para o aperfeiçoamento do homem. Não fosse a
destruição sistemática de antigas bibliotecas, determinada pelo
clero no intuito de preservar os seus escusos interesses, hoje
seria possível patentear com documentos à mão que a moral
anterior à cristã era bem melhor do que esta, tendo-lhe servido
de modelo. Assim, vê-se que a moral jamais foi patrimônio de
castas ou de indivíduos, sendo uma lenta conquista da humanidade,
com ou sem religião, e mesmo contra ela. Por isso é que o mundo
racionaliza-se continuamente, e avança sempre no sentido do seu
aperfeiçoamento. A bondade humana independe da idéia religiosa.
A razão ensina-nos o que devemos ao nosso meio social,
independentemente da fé e da religião. Para justificar o
aparecimento de Jesus, fez-se necessário recorrer a uma moral
que, no entanto, já era um patrimônio da humanidade. Jesus nada
mais foi do que a materialização de qualidades que já existiam.
Por isso, mesmo em moral, Jesus foi ator, não autor. O
cristianismo apenas sistematizou e industrializou essa velha
moral, estabelecendo-a como um rendoso comércio. A Igreja é
responsável pela deturpação dessa moral. Havia a moral pela
moral, que foi substituída pela moral bíblica, em que só se é
bom para ganhar o céu.
Superpondo-se um
grupo empresarialmente forte, extinguiu-se a moral individual.
XVII
Judaísmo
e Cristianismo
Pesquisas recentes e
estudos comparados têm demonstrado que a mitologia
judaico-cristã é bem anterior ao próprio judaísmo, quando se
percebe que dogmas como o da imortalidade da alma, da
ressurreição e do Verbo encarnado são muito anteriores ao
cristianismo.
A imortalidade da
alma já era multimilenar quando os judeus foram levados cativos
para a Babilônia. Zoroastro ensinara, muito antes, ser a alma
imortal, e que essa imortalidade seria produto de uma opção
humana. O livre arbítrio levaria o homem a escolher uma vida que
o levaria ou não à imortalidade. O erro e o mal produziriam a
morte definitiva, a prática do bem, a imortalidade.
Do mesmo modo, na
Ciropédia, bem anterior a Zoroastro, lê-se que Ciro, moribundo,
disse: “Não creio que a alma que vive em um corpo mortal se
extinga desde que saia dele, e que a capacidade de pensar
desapareça apenas porque deixou o corpo que não tem como pensar
por si mesmo”. Por outro lado Einstein, pouco antes de morrer,
declarou não crer que algo sobrasse do ser vivo após a morte.
Os egípcios, os
hindus, os sumérios, os hititas e os fenícios criam na
imortalidade da alma.
A ressurreição foi
um dos fundamentos do Zend-Avesta. Zoroastro também ensinou que o
fim do mundo seria precedido por um grande acontecimento, a ser
predito por profetas. Os persas tiveram os seus profetas, que
foram Ascedermani e Ascerdemat, os quais passaram à Bíblia sob
os novos nomes de Enock e Elias, entidades míticas, como se vê.
Desses mitos surgiram o Talmud e os Evangelhos, o que mostra que,
em religião, a idéia original pertence à noite dos tempos.
A doutrina do Verbo
já era antiqüíssima no Egito. Deus teria gerado Kneph – a
palavra, o Verbo –, que é igual ao pai. Da união de Deus com o
Verbo nasceu o fogo, a vida, Fta, a vida de todos os seres.
O monoteísmo e a
Santíssima Trindade eram crenças muito antigas na Índia. Os
deuses únicos e os deuses secundários são uma velha doutrina
oriental. A religião greco-romana já possuía o seu Apolo e
Zeus, acolitados por uma porção de deuses secundários. Essas
velhas lendas deram origem ao Deus do cristianismo, com toda sua
corte de santos e anjos. O politeísmo de há muito vinha
caminhando para o monoteísmo. Os gregos já haviam concebido a
idéia de um intermediário entre os homens e Júpiter, que era
Apolo, tendo-se encarnado para redimir os homens.
Porfírio citou o
seguinte oráculo de Serapis: “Deus é antes e depois e ao mesmo
tempo, é o Verbo e o Espírito, como um e outro”.
O mundo antigo cria
em um Deus único, pai de todas as coisas, afirmou Máximo de
Tiro. O povo então já dizia: Deus o sabe! Deus o quer! Deus o
abençoe! Os oráculos só se referiam a Deus e não aos deuses.
Os apologistas do
cristianismo, tais como Eusébio, Agostinho, Lactâncio, Justino,
Atanásio e muitos outros, ensinavam que unidade de Deus era
conhecida desde a mais remota antiguidade. Os órficos, inclusive,
admitiam-na.
Na Bíblia, ao ser
traduzido para o grego e para o latim, o nome de Deus passou a ser
muitas vezes Senhor, Dominus, para ficar conforme o nome do
Deus-sol do mitraísmo.
O amor a Deus foi a
base de todas as religiões copiadas pelo judaísmo. Isaías
falava de Deus como Pai Celestial. Ezequiel dizia que Deus não
queria a morte do pecador, preferindo antes a sua conversão. O
justo viverá eternamente pela fé. São palavras de Habacuc,
repetidas por Paulo em Gálatas 3:2.
Como vimos, a
doutrina do Verbo vem de Platão, tendo sido este o intermediário
entre os metafísicos e os cristãos. Foi ele quem concebeu a
idéia da separação do corpo e da alma, e pôs aquele na
dependência desta. Na sua opinião, a terra era o desterro da
alma. Foi o criador do sistema filosófico da decadência moral do
homem, fazendo dos sentidos uma ameaça, do mundo um mal, e da
eternidade o delírio, o sonho.
Cícero e Sêneca
tinham idéias cristãs, mas não conheceram a Jesus Cristo nem ao
cristianismo. Agostinho leu as obras de Cícero e trocou o
maniqueísmo pelo cristianismo. A Igreja procurou destruir as
principais obras de Cícero e de Sêneca para que a posteridade
não percebesse que eles não tinham sido cristãos seguidores de
Cristo, mas apenas que as suas idéias coincidiam com as que o
cristianismo esposou.
O cristianismo nasceu
da helenização do judaísmo. Os cristãos terapeutas abandonaram
o judaísmo ortodoxo porque este tinha posto de lado o culto
nacional do templo e o sacrifício Pascal, retirando-se para uma
vida contemplativa nos montes, longe dos homens e dos negócios.
Estabeleceram uma sociedade comunal, considerando o casamento um
apego à carne, um empecilho à salvação da alma, com o que
proscreveram os principais prazeres da vida, exaltando o celibato
e a pobreza, como os essênios, além de aconselhar a caridade.
Eusébio chamou aos
terapeutas de cristãos sem Cristo. Para ele, um terapeuta era um
autêntico cristão. Isto levou Strauss a escrever: “Os
terapeutas, os essênios e os cristãos dão sempre muito o que
pensar”.
A doutrina dos essênios, a moral dos terapeutas, a encarnação
do Verbo, vinda do judaísmo helenizado, é o cristianismo de
Filon. Desse modo, Filon foi criador do cristianismo, sem o saber.
Ele refere-se ao Verbo nos termos da mitologia egípcia, sem,
contudo, mencionar a crença em Jesus Cristo.
Salomão fez da
sabedoria divina a criação. O Livro da Sabedoria define a
natureza desse principio intermediário, transformando o
pensamento vago do rei judeu sobre a sabedoria da doutrina do
Verbo.
Sirac, em “Eclesiástico”,
faz a doutrina do Verbo ser mais precisa: “A sabedoria vem de
Deus, estando sempre com ele. Foi criada antes de todas as coisas.
A voz da inteligência existe desde o principio. O Verbo de Deus,
no mais alto do céu, é a fonte da sabedora”! Filon disse que o
Verbo se fizera humano. Segundo ele, Deus era infalível e
inacessível à inteligência humana, não nos alcançando senão
pela graça divina. Para ele, ainda, o Verbo não era apenas a
palavra, mas a imagem visível de Deus. O Verbo seria o Ungido do
Senhor, o ideal da natureza, o Adão Celeste, é a doutrina da
encarnação do Verbo, tomando a forma humana. O Verbo é o
intermediário entre Deus e os homens. Diz ainda que o Verbo é o
pão da vida. Por ai vemos que não foi o Cristo o criador do
cristianismo, mas este é que o criou.
Clemente de
Alexandria, Origenes ou Paulo, assim como os primeiros padres do
cristianismo, jamais se referiram a Jesus Cristo como tendo sido
um homem que tivesse caminhado do Horto ao Gólgota, mas
tiveram-no apenas como o Verbo, conforme a doutrina de Platão e
de Filon.
XVIII
O
Cristianismo sem Jesus Cristo
Está patente a
existência do cristianismo sem Cristo. A existência do clero,
por outro lado, foi uma exigência bramânica. Pregando por meio
de parábolas, os sacerdotes faziam-se necessários para
esclarecer o sentido das mesmas. Justifica-se, assim, o pagamento
com as esmolas dos crentes. Ensinavam a religião e apoderavam-se
do dinheiro. Suas terras e os templos já eram isentos dos
impostos. O sumo-sacerdote não se casava e era venerado como um
deus.
No
budismo, tanto os bonzos como os mosteiros são mantidos pela
comunidade, e os monges, igualmente, não se casam. O Dalai-Lama
é o Vigário de Deus, o sucessor de Fó, sendo Infalível como o
Papa se diz ser. Nos mosteiros todos se chamam de irmãos.
O
clero persa era dividido em ordens hierárquicas, e tinha o
direito a um décimo da renda da comunidade. Os magos persas, como
os profetas judeus, eram puros e não trabalhavam.
No Egito, a classe
mais alta era a dos sacerdotes. Elegiam o rei e limitavam a sua
ação. O povo arrendava as terras do templo. Só o clero ensinava
a religião e presidia aos sacrifícios. O regime era teocrata e
todos tinham de submeter-se às regras eclesiásticas. O sacerdote
era o adivinho, fazia os oráculos, as profecias, os sortilégios
e os exorcismos. Afirmava ter força sobre a natureza, para o bem
da humanidade.
Os brâmanes
procuravam afugentar os malefícios e as maldições. Para isto,
cultivam certas plantas, como o lótus e o cânhamo, das quais
faziam licores como o “amrita”, que possuía virtudes
milagrosas. Tinham as mesmas modalidades de expiação ainda hoje
adotadas pelo cristianismo.
As mortificações
hindus são as mesmas praticadas pelos cristãos medievais. Certos
crentes carregaram durante toda a vida enormes colares de ferro,
outros, pesadas correntes de ferro. Alguns se marcavam com o ferro
em brasa, avivando a ferida todos os dias. Muitos vão rolando
deitados até Benares, pagar ali suas promessas. Também usam
sandálias cravadas de finos pregos, os quais entram pelas solas
dos pés.
No Egito, os
sacerdotes de Ísis açoitavam-se em sua honra, expiando, com
isso, suas próprias culpas e as do povo.
Entre os gregos havia
a água lustral para as expiações e para as propiciações. Os
sacerdotes de Dodona feriam-se e os de Diana praticavam tais
coisas em seus corpos, que às vezes punham em perigo a própria
vida.
Os romanos procuravam
livrar-se das calamidades públicas oferecendo aos seus deuses
sacrifícios humanos. Os Indostânicos tornavam-se celibatários,
pediam esmolas, jejuavam e isolavam-se do convívio com outras
Pessoas.
No budismo, as
crianças eram ensinadas a fazer votos de castidade. O governo
concedia honras especiais ao que chegavam aos 40 anos castos. No
Egito, existiam mosteiros apropriados para os que faziam votos de
castidade. Também os sacerdotes de Baco, na Grécia, faziam tais
votos. Os sacerdotes de Cibele eram castos e castrados. Em Roma,
as vestais viviam em mosteiros, indo para eles até aos seis anos
de idade, e juravam não deixar extinguir-se o fogo sagrado e
manterem-se virgens. A que faltasse ao juramento seria enterrada
viva e, o amante, condenado à morte.
Os budistas
consagravam o pão e o vinho, representando o corpo e o sangue de
Agni, quando os bonzos aspergiam os crentes. Enquanto aspergem
água lustral, cantam hinos ao sol e ao Fogo, o “Kirie Eleison”
que os católicos copiaram e cantam ou recitam durante a missa.
Inicialmente o sacrifício constava da imolação de uma pessoa, a
qual posteriormente foi substituída pela hóstia. Tal como o
padre católico, o sacerdote budista também lava as mãos antes
das libações. A cerimônia budista é em tudo semelhante à
missa da Igreja Católica.
Os persas tinham, em
seus ritos religiosos, a eucaristia, ou seja, a mesma oferenda do
pão e do vinho que também consta do ritual da missa, bem como o
Pater Noster, o Credo e o Confiteor.
Na Grécia, rezava-se
pela manhã e à noite. Os etruscos juntavam as mãos quando
oravam. Também a confissão lá era praticada pelos persas. O
ritual do catolicismo tem muito do ritual mitraico, assim como a
vestimenta dos sacerdotes católicos foi copiada do figurino dos
sacerdotes de Mitra.
Muitas das religiões
pré-cristãs já festejavam a Páscoa e a Natividade. Os persas
inclusive dedicaram um dia aos mortos. E, no dia em que o filho
começava a receber instrução religiosa, havia festa na casa dos
pais.
Entre os gregos, cada
dia da semana era dedicado a um deus.
Os Hindus viviam
peregrinando de um templo para outro. Criam na existência de dias
bons e dias maus, como também em sortilégios e malefícios. Cada
pessoa era dedicada a um anjo que a protegia desde o nascimento.
Benziam as vacas, os instrumentos agrícolas e animais
domésticos.
A história do
passado religioso do homem está repleta de virgens puras e belas,
que são as mães dos deuses. Maria, mãe de Jesus Cristo, é
apenas mais uma dentre tantas outras.
Igualmente, as
procissões constituem práticas multimilenares. É antiqüíssima
tal modalidade de culto. Juno e Diana passearam em andores durante
muitos séculos. As cidades sempre se enfeitaram à passagem dos
santos e dos deuses.
Por aí vemos que nem
Jesus nem o cristianismo têm nada de original. A veneração das
imagens já era muito anterior ao cristianismo. Por outro lado, o
judaísmo, que as baniu, não foi, entretanto, o primeiro a tomar
tal atitude. Plutarco disse que os tebanos não as usavam, assim
como Numa Pompílio proibiu os romanos de usarem-nas, durante o
seu governo. O batismo era uma cerimônia praticada pelos antigos
muito antes de se cogitar, sequer, do nome de cristão. Os hindus
lavam o recém-nascido em água lustral, dando-lhe um nome de um
gênio protetor. Aos oito anos, a criança aprende a recitar os
hinos ao Deus-Sol. A extrema-unção também, de há muito antes
do cristianismo, era praticada pelos hindus.
Copiando detalhes dos
ritos e cultos de uma grande variedade de seitas, o cristianismo
constituiu o seu próprio ritual, tudo girando em torno do
Deus-Sol, no qual, por fim, vestiram a roupa de Jesus Cristo.
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