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"O
sistema, a ciência e a religião se combinaram para deixar bilhões
cansados de viver, mas ao mesmo tempo com medo de morrer."
A
Maior de Todas as Sabotagens
J.
W. Bautista Vidal*
Texto publicado em A
Nova Democracia
Doado por pardalmatusca
Viveu o Brasil no dia 22 de agosto último — sempre em agosto — uma de
suas grandes tragédias com a misteriosa explosão — cheirando a
sabotagem — do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), na base de
Alcântara, MA, a melhor localizada em todo o mundo, chegando a economizar
30% da energia necessária aos lançamentos.
O Senado da República, por proposta do senador Helio Costa, deve avaliar
o que estavam fazendo na baia de São Marcos, no dia da tragédia,
inúmeros barcos estrangeiros. A imprensa, porém, insiste em enfatizar
campanha que tende a transformar as vítimas em culpados e, assim, desvia
da análise as verdadeiras razões da tragédia. O Centro de Lançamento
de Alcântara recebeu em 1995 recursos de cerca de R$ 10 milhões, e
apenas R$ 1 milhão em 2002, quando os gastos da infra-estrutura já
instalada são de aproximadamente R$ 9 milhões.
Na realidade, as atividades desenvolvidas em Alcântara começaram há
mais de meio século em São José dos Campos, no Centro Técnico
Aeroespacial (CTA), um dos nossos melhores centros tecnológicos
industriais. Essas atividades deram ao Brasil importantes resultados entre
os quais: a) criação de uma das principais indústrias de aviões do
mundo, a Embraer; b) o outrora mais importante programa aeroespacial do
Terceiro Mundo, cujo último grande resultado seria o VLS-1, que explodiu
quando era preparado para seu lançamento dois dias depois. A Índia já
investe no programa espacial este ano três vezes mais do que o Brasil; c)
a decisiva contribuição na área de motores, que permitiu o surgimento
do Pró-álcool, ademais de milhares de contribuições de inovação
tecnológicas transferidas para indústrias nacionais nos setores de
materiais, metalurgia, eletrônica, química e tantas outras áreas
estratégicas em projetos industriais e de engenharia nos setores bélico,
aeronáutico, de energia, fissão nuclear, petróleo, naval,
telecomunicações, armamentos, entre outros.
São milhares as contribuições em componentes industriais, materiais de
densidade tecnológica e inúmeras indústrias de alta sofisticação,
possíveis somente em país com avançado parque industrial puxado por
empreendimentos industriais detentores de adequado acervo tecnológico
desenvolvido em centros de pesquisas de padrão internacional — como é
o caso do Centro Técnico Aeroespacial do Ministério da Aeronáutica.
“Pensar em comissão ‘independente’ é o mesmo que desejar a fraude
da independência do Banco Central ao desvinculá-lo do Estado brasileiro”
Se afastadas as hipóteses de atentado ou sabotagem industrial, em
processo de averiguação, a possível falha que resultou na tragédia
poderia ser debitada a um desses milhares de estratégicos elementos que
provêm de inúmeros fornecedores de máquinas, equipamentos, materiais e
componentes normalmente submetidos a rigoroso controle de qualidade na
indústria de origem e no seu destino.
Sob este ponto de vista, os melhores julgadores das causas da tragédia
seriam os mortos, em sua quase totalidade constituída por engenheiros e
cientistas com mais de vinte anos de experiência nessas complexas
atividades, ou seus companheiros de trabalho e superiores que não se
encontravam no local no momento da explosão. Nas circunstâncias, o
imenso poder de destruição — 40 toneladas de combustível sólido —,
submeteu as estruturas e os corpos das vítimas a elevadíssimas
temperaturas, ficando muito difícil, mesmo para um experimentado
especialista, identificar a causa primeira da tragédia nos escombros
resultantes da violenta explosão. Assim, pensar em comissão “independente”
é o mesmo que desejar a fraude da independência do Banco Central ao
desvinculá-lo do Estado brasileiro. Essa suposta independência tende a
desviar a identificação das verdadeiras causas de tão complexa
situação, mas fortalece a perversa tese de que os mortos são os
culpados, repetindo a tática usada no caso do afundamento da plataforma
marítima da Petrobrás e outros casos, em que culpados transformam-se em
julgadores.
Estamos vivendo hoje a desoladora situação de nação que caminha para a
ruína e que vê seus principais ativos, construídos nos últimos setenta
anos, serem destruídos ou transferidos para o controle internacional
conjuntamente com os patrimônios naturais estratégicos.
“Hoje, há uma estrutura produtiva esmagada do lado do capital nacional,
o único que tem motivação pelo desenvolvimento tecnológico”
O Brasil chegou neste ano de 2003 à mais baixa taxa de investimentos de
todos os tempos, quando dispõe de recursos naturais excepcionais e
competência tecnológica para voltar a crescer na média de 8,8% ao ano,
como ocorreu no período 1970/80. Ou, na pior das hipóteses, pode repetir
a média histórica de todo o século passado quando cresceu 4,5% ao ano
procurando a industrialização. Chegou assim a ser a 8a economia.
De 1981 para cá, porém, devido à absurda política de dependência
externa, encruou em 2,2% na chamada década perdida e no triênio 2001/3
deve ficar em torno de 1% ao ano. Já caminhamos em plena recessão. Ou
seja, despencou em apenas duas décadas da segunda para a 93a posição do
ranking mundial. Um retrocesso monumental, fruto principalmente do
criminoso governo de Cardoso, servil à perversa política do Fundo
Monetário Internacional (FMI), que considera investimentos do Estado —
como o essencial aumento de geração elétrica pelas empresas de economia
mista, a prospecção e exploração de poços de petróleo pela
Petrobrás e a manutenção do programa espacial do Ministério da
Aeronáutica — como déficit em vez de investimentos cruciais. Esta
lamentável e criminosa política, apesar da sua rejeição pela
população na última eleição presidencial, está tendo continuidade no
governo Luis Inácio.
A inapetência de ruptura com a estúpida anorexia monetária que se
reflete em tirania de dinheiro falso de origem externa, leva o Brasil para
uma situação em que são sintomáticas as tragédias como as de
Alcântara e da plataforma marítima da Petrobrás. Mais que tragédias
localizadas, elas balizam a tragédia histórica de um povo potencialmente
rico, cujos dirigentes adotam postura servil ante as metrópoles
coloniais, levando a nação a perder a postura de conjunto e perdendo a
essencial unidade necessária à defesa ante a devastação causada pelo
usurpador externo.
Vivemos, assim, um processo de decadência e de brutal destruição da
estrutura industrial de capital nacional, cujas consequências lógicas
são as tragédias como essas.
Hoje, há uma estrutura produtiva esmagada do lado do capital nacional —
o único que tem motivação pelo desenvolvimento tecnológico — e
internacionalizada nos ativos e patrimônios estratégicos pela ação de
governos que se submeteram ao controle externo, com grave perda de
autonomia e poder de competição. Por isso, os bens e serviços perdem as
qualidades essenciais para alimentar programas de elevadíssimo nível
tecnológico, como ocorre no setor aeroespacial. Ele é fruto de
dirigentes desfibrados e despreparados, que preferem o que o professor
Cerqueira Leite chama de servilismo voluntário às forças externas que
comandam de modo absoluto a tirania vídeo-financeira que domina o país.
Esse evidente processo de decadência e afundamento foi fruto de
políticas antinacionais, ditas neoliberais, como a que resultou do
Consenso de Washington, desde 1979 e, muito especialmente, nos oito anos
de governo de Cardoso. Nesse período, de modo crescente, foi-se reduzindo
a soberania nacional por meio do esvaziamento do lado nacional, pelo
fechamento e internacionalização de indústrias, quando o país
alcançava altos níveis tecnológicos em vários setores industriais,
como o aeroespacial, de grande destaque mundial, graças à autonomia
tecnológica que o Brasil foi conquistando, apesar das nefastas
influências do modelo dependente que domina o país há 50 anos.
“Inúmeras tecnologias foram desenvolvidas e transferidas para a
indústria, o que significou uma economia de divisas superior a US$ 1
milhão por mês”
De fato, na área aeroespacial o Brasil ocupava o primeiro lugar entre os
países do chamado Terceiro Mundo, incluindo-se em um pequeno clube de
países que desenvolviam atividades nesse setor. No modelo do
Brasil-colônia implantado desde 1979, isso não podia continuar. Por
isso, foi praticamente destruída toda a estrutura tecnológica anterior
no país, simultaneamente ao esmagamento das empresas de capital nacional,
públicas e privadas.
A trajetória do CTA na área aeroespacial é longa e vitoriosa, além dos
grandes avanços na área industrial de aviões, como o Bandeirante —
com mais de 500 unidades vendidas em todo o mundo, especialmente nos EUA
—, o turbo hélice Brasília, de 30 lugares, e as novas versões atuais
do jato ERJ-145, de 50 lugares, os ERJ-170 e 190, com 70 e 90 lugares,
respectivamente. Na área de aviões militares, tivemos o desenvolvimento
e a fabricação conjunta com a indústria aeronáutica italiana do
sofisticado AM-X.
Em 1965 iniciou-se no CTA o desenvolvimento do primeiro foguete de
sondagem meteorológica, o Sonda I. Inúmeras tecnologias foram
desenvolvidas e transferidas para a indústria, o que significou uma
economia de divisas superior a US$ 1 milhão por mês. Mais de 225
foguetes Sonda I foram lançados a partir da base de Barreira do Inferno,
em Natal. Logo vieram o Sonda II, em 1966, e o Sonda III, com dois
estágios, em 1969, utilizados em pesquisas atmosféricas e ionosféricas.
Ambos necessitaram de desenvolvimentos tecnológicos de laminados de aço
de alta resistência que passaram a ser produzidos na Acesita. Foram
eliminadas as dependências externas na produção de envelopes de motores
e minoradas as dificuldades de atendimento de materiais metálicos de alta
resistência, em especial nos setores de caldeiraria e ferramental. Foram
lançados 61 Sonda II e 29 Sonda III das bases de Barreira do Inferno e
Alcântara.
Um passo avançado foi dado em 1974 com a pesquisa e o desenvolvimento do
foguete Sonda IV, oito toneladas, que exigiu a utilização de ligas
metálicas de ultra-alta-resistência. O CTA desenvolveu, junto à
indústria nacional moderna, a liga de aço conhecida como 300M, de
altíssima resistência, por meio da técnica especial de fusão
(eletro-slag). Houve transferência de sofisticadas tecnologias para a
Eletrometal, Usiminas e Acesita, todas de capital nacional. Todas elas
foram “internacionalizadas” na “bacia das almas”, bem como a
Embraer. Empresas nacionais privadas foram capacitadas na produção de
matérias primas para peças de alto grau de confiabilidade e
durabilidade. Assim, foi instalado pelo CTA na Eletrometal, o maior forno
do Hemisfério Sul para tratamento térmico de metais. Este trabalho foi
motivo de bloqueio pelo governo norte-americano na década de 90, gerando
sério incidente diplomático.
As atividades espaciais e aeronáuticas vinham permitindo significativos
avanços tecnológicos na indústria brasileira em várias áreas do
conhecimento, como materiais, eletrônica, química, beneficiando-se a
economia nacional do gigantesco esforço de nacionalização que permitiu
ao Brasil penetrar no reduzido número de países que atuam na indústria
aeroespacial, hoje um mercado de cerca de US$ 200 bilhões.
Assim, a fabricação de foguetes e o Veículo Lançador de Satélites
também envolve a fabricação de propelentes, isolantes térmicos
elásticos resistentes a altas temperaturas, desenvolvimento de estruturas
ultra leves e resistentes, técnicas de controle por infravermelho e
laser, sofisticados instrumentos de controle, dispositivos de
recuperação de cargas úteis suborbitais, estruturas compostas de fios
não metálicos, turbinados resistentes a altas pressões, ligas especiais
de titânio, materiais cerâmicos e carbonosos. Além disso, o
desenvolvimento de fios de alta tenacidade, produção de cordas e fitas
de alta resistência e centenas de outros itens de avançada tecnologia.
“Dirigentes tiveram que dispensar seus trabalhadores três vezes por
semana, reduzindo o trabalho a meio expediente por falta de dinheiro para
fornecer o almoço”
Os materiais compostos, visando a obtenção de estruturas de foguetes de
fibra e resinas especiais, contribuíram de modo decisivo para o
desenvolvimento de partes dos aviões da Embraer. Esta foi por algum tempo
a única fornecedora para a Boeing-Douglas dos “flaps” feito com
material composto das enormes asas do avião MD-11.
Os benefícios para a indústria nacional foram imensos e os retornos
financeiros foram dezenas de vezes maiores do que já despendido nos
projetos espaciais. Isso permitiu ao Brasil promover a fabricação e
exportação de aeronaves de alta tecnologia gerando bilhões de dólares
no mercado externo e mais de dez mil postos de trabalho de elevadíssima
sofisticação tecnológica. Permitiu também o desenvolvimento e a
fabricação de aeronaves, armamentos e equipamentos de elevado conteúdo
tecnológico para o re-equipamento das Forças Armadas, hoje em processo
acelerado de sucateamento.
Grande parte das centenas de indústrias que surgiram, detentoras de
avançadas tecnologias desenvolvidas no país em torno do programa
aeroespacial e de aviões, foi fechada e as mais estratégicas foram “internacionalizadas”.
O desemprego foi imenso e as equipes técnicas não se renovaram. Nos
últimos 15 anos, apenas um engenheiro de aeronaves conseguiu emprego, o
que demonstra a decadência provocada pelas políticas financeiras
impostas ao país pelo FMI — e suportada de modo vergonhoso por
dirigentes políticos que ocuparam nos últimos 20 anos os postos de
comando político interno.
Com os gigantescos juros impostos pelas dívidas brasileiras e mais um
superávit fiscal que já alcança 5,5% do PIB, não sobra dinheiro para
nada. O país vive em plena recessão e caminha para a ruína, porque teve
grande parte de sua estrutura produtiva destruída por políticas
monetaristas criminosas.
Todos os programas, por mais importantes que sejam, sofrem reduções
drásticas nas suas previsões orçamentárias. No ano de 2002, o programa
do VLS-1 recebeu apenas 10% do previsto no orçamento. Dirigentes tiveram
que dispensar seus trabalhadores três vezes por semana, reduzindo o
trabalho a meio expediente por falta de dinheiro para fornecer o almoço.
Simplesmente irresponsável o que as delinquentes autoridades financeiras
estão fazendo com o país. Isto compromete de modo irremediável os
demais dirigentes que toleram tanto arbítrio sem nada fazerem,
acovardados ante a prepotência financeira.
Não é o projeto do VLS-1 que está sendo sabotado, é a sobrevivência
do Brasil que está comprometida com a nefanda política da tirania
financeira do dinheiro externo falso transformada em verdade absoluta.
Estamos vivendo a grande sabotagem que leva à destruição do todo país.
*J. W. Bautista Vidal é físico, engenheiro, pesquisador, autor
(premiado) de diversos livros em que defende o uso da biomassa. Foi o
principal responsável do Pró-Álcool, é consultor de várias
instituições civis internacionais que se dedicam aos estudos
estratégicos dos avanços técnico-científicos em benefício dos povos.
O cientista é também presidente do Instituto do Sol (ver AND 1, 4, 8, 9,
12).
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Nota: Jackson Macêdo,
Uma Nova Era Website e/ou o doador deste material pode ou não
concordar com todas as informações ou conclusões deste arquivo.
Ele é apresentado aqui sem modificação para o seu benefício e
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